Wednesday, August 23, 2006

LU MENEZES


foto: Cildo Meireles

menciona a:
Carlos Tamm
Italo Moriconi
João Moura Jr.
Jorge Henrique Bastos
Paulo Henriques Britto
Vivien Kogut
Adolfo Montejo Navas


mencionada por:
Sérgio Alcides
Jorge Lucio de Campos
Francisco Alvim


poemas:

TSUNAMI E VIZINHANÇA
Então, a mulher e a criança
seguiram uma serpente que nadou para terra firme
e conseguiram se salvar.

― A mulher
era só certa vizinha a quem, antes de morrer, a mãe
confiara a criança.

A serpente
terá sido, de repente, uma espécie de vizinha também.
― Vizinha de outra espécie.


MOLDE PARA SILÊNCIO

À beira da piscina vazia
posicionadas de certo modo
três cadeiras brancas vazias
de certo modo se entreouvem
se entrefalam e entressilenciam.


SOPRANDO UM BURANO

― Olha, meu filho, de tão preocupada, preferi não ir a Murano: ao invés
de ver soprarem vidro, sopraria eu mesma o meu próprio
e distante Burano... Distraiu-me a Olympus
posta na mala por teu pai à revelia da minha não-
fotografia. Sol escondido,Veneza
emburkada como na tarde em que cheguei, nublada pós-
conexão em C.D.G. pós-fascista, resmungando antiturística que
Visconti era melhor – a Arte seria sempre
melhor – enquanto o
vaporettorumo ao Lido avançava...
Desta vez, todavia, ele de lá
se afastava... só se via
água e mais
água quando
ante oscura extensão
perguntei à vizinha, em cuja oscura fisionomia
todo o mormaço ancorara: ― Será um campo de mexilhões ou não
é nada? Bem frente ao Nada (note
na foto aí) estive até surgir
um barco de médio porte
negro e laranja tal
gigantesco
mexilhão,
meu mexilhão.

Logo, Burano à vista –
veja – multicolor
vencendo a névoa apareceu como o real dissoluto com seus
processos de revelação ininterruptos.

Comi os mais frescos frutos do mar do mundo –
cadeira tão à beira do canaletto que um vinho extra –
hás de convir – me afogaria. (Lê-se na placa dessa ruela, aliás,
Fondamenta dei Assessini”.) Comprei um piano
de renda um pavão
de renda uma paisagem
com ondas, gôndolas,
casas e ruas de renda nas quais
minha fuga de mim
prosseguiu. Mesmo assim,
voltei antes, ameaçada
por chuva que não chegou a cair.



bio/biblio

Lu Menezes (São Luís) mora no Rio. Publicou O amor é tão esguio (ed.da autora 1979/80) e – Abre-te, rosebud! (Sette Letras, 1996). Publicará em breve Onde no mundo – propiciado pela Bolsa VITAE de Literatura. Fez doutorado em Literatura Comparada, com tese inédita sobre o tratamento da cor nas poesias de João Cabral e Wallace Stevens. Trabalha nas áreas de pesquisa e tradução.


"Arte poiética: vida literal antes de vida literária." Lu Menezes

8 comments:

  1. Anonymous10:33 AM

    Muito bons os poemas de Lu Menezes. "Soprando o Burano" prova que se pode fazer poesia de linguagem trabalhada sem ser fria, oca, como se vê por hoje. Gostei muito mesmo. Virei fã.

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  2. Anonymous6:42 PM

    Oi, Lu! Lindos poemas... Que bom que vc gostou de "Sobre um poema".
    Um beijo,

    Sérgio.

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  3. Estou muito feliz e surpreso com seus novos poemas. Obrigado pela aula particular de poesia nada gratuita que vc me deu. Um beijo pra ti!

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  4. Anonymous4:26 PM

    Querida tia Lu,
    Como é difícil definir em palavras o que nos dizem as suas.
    beijo imenso

    Clarisse (Tarran)

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  5. delícia de reencontrar poema de lu menezes depois de tantos anos atrás ter lido abre-te rosebud

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  6. Lu:

    Não sei se você se lembra de mim. Fiz uma monografia sobre Abre-te Rosebud! há alguns anos atrás. Precisava muito falar contigo!

    Beijo:
    angelamontez@yahoo.com.br

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  7. Lu. Gostaria de falar com você
    Grande Blog. Grande idéia


    http://franciscoorban.blogspot.com/
    francisco.orb@oi.com.br

    Abraço do

    Francisco orban

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  8. Encantado
    não era
    o lugar
    encantado
    era eu

    Francisco Orban

    Lu. Estou enviando meu haicai para você.
    Gostaria de fazer parte de suas escolhas afectivas
    Abraço do amigo Francisco Orban
    http://franciscoorban.blogspot.com/

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