Friday, September 22, 2006

ITALO MORICONI


mencionado por
Lu Menezes
Sérgio Nazar David

menciona a
Ângela Melim
Guilherme Zarvos
Laura Erber
Leonardo Martinelli
Marcos Siscar
Silviano Santiago
Vivien Kogut





[Poemas]

MILONGA

para Pablo
De tamanho e peso
E calenturas
Se fez nosso amor
Casual, necessário
Lentamente veloz
Nos livramos dos ferros
Nos despimos do látex
De todas as máscaras
E demais artifícios
Enfrentamos com calma
Cada cara colada
Horizonte em pedaços
Por detrás do infinito
Sem lencóis, somente
Baralhando espaços
Velejantes terraços
A`perder-se de vista, no bairro do Sul.
Os fantasmas, brindamos
Cinzentos varais, foscos panos
Nos fitamos enfim
Com as pontas das línguas
A roçar, rumo ao pampa
Sob a pompa de peles
Que impelem sem mais.
Libertos dos couros
Novilhas e potros
Recém relaxados
Traçando seus fios
Sobre o dorso da aurora
Sob o céu de uma boca
Eu já nem sabia
Que esquina era aquela
(“São tantas, e iguais”, lera no Aira)
A nos redespertar
Nos despersonificar
Nas esquinas nas quilhas
Não mais se inscreviam
Rabiscos, sinais
Sobrenomes ou nomes
O rebenque zunia
Entre sombras de sono
Desejei acordar
Quantificar
E os olhos, relógios,
Globos terrestres
Roubados à lua.
Toma, te empresto,
Assim descobri
Sua verdade final
Um primeiro passo
Como a brisa fortuita
Que ainda batia
Sobre uns últimos véus.

(Buenos Aires, 1999)




GRAFIAS DE UM PEIXE


i.
Sublinho a linha de teu dorso
com escrita úmida, estilete de saliva
que aponta ao pespontar cada ponto de poro teu

você pode sucumbir
oh você deveria sucumbir
à escrita de teu dorso tigrino, circunspecto.

Haverão de me entender, os que lerem
estas traçadas linhas, trilhas
com volutas, sobre a linha que se esfia:

ii.
Sim, eu digo, ou tremo,
gosto assim, em descuido de direção,
curvas como pela estrada da serra, de santos
que acendem aqui, no oco dos cavalinhos de pau
o desejo de meu pai
por minha mãe
e dela por ele
perene em mim.

iii.
Vamos ver o que fazer.
Nada.
Deixar-se ficar
Ao sabor das pedras
Que rolam sobre outras pedras
Movidas pela água
Enquanto dura.

iv.
E lá fomos mar adentro, superemforma,
como no sonho americano.
Mas éramos dois indios, bichos dágua
na onda curiboca das fantasias, Atlântida
de peixes de carne tenra, terra sem santa cruz, se pegando
a muque, debaixo do último sol, longe
dos apartamentos cegos, inocentes, silenciados
à força, nossa força mítica,
esportiva.

(Praia do Arpoador, Rio de Janeiro)














CLEARLY NON-GLOSSY
(Lendo “Pela noite”, novela de Caio F. )

Comer e dar, dar e comer, comer e dar, pisar em cocô. Aquilo incomodava, eu ainda não sabia que vinha e de onde. Era como a cólera das mucosas. Mergulhar em cocô.Vingança daquele tipo de anjo. Quando nasci uns banjos galopantes disseram, a vida é brutal, sabias? Quis delicadezas.

Preciso comer. Preciso tomar as pílulas. Preciso comer. Preciso tomar as pílulas. Preciso comer. Preciso é preciso. Vou comer. Você não vai comer. Você vai ingerir as pílulas. Com bastante água. Preciso comer. Preciso correr. Vou comer. Vou delirar. A boca pela tua pele até perder o tato, do céu, do mel. Tudo. Não quis deixar nada. O peixe morre pela boca.

Nada deixar. Nada. Cascatas metafísicas. Silêncios sobrepondo-se a silêncios. Cascatas de secreção tatuariam a pele triste, a carne alegre alegre alegre // Lhe dei leitinho, não lhe dei casa. Preciso eu comer. Jorros. Vindos do ventre besta desativar o credo em cruz. Fica. Fica por perto. Fica colado, anjo bestial. Fica sem pica. Desitalianizar-se. Desamericanizar-se. Desbrasileirar geral. Desbrasileirar parece desbandeirar. Deixa tudo. Não fica. Não volta.






[Bio/biblio]
Nascido no Rio de Janeiro, em 1953, cresceu em Brasília, onde morou até terminar o curso de Ciências Sociais na UnB. Terminada a faculdade, mudou-se definitivamente para o Rio, onde fez Mestrado e depois Doutorado em Letras e começou a publicar ensaios e poemas na imprensa cultural. Em 1986, tornou-se professor de Literatura Brasileira na UERJ, onde continua até hoje, na Graduação e na Pós. Livros e plaquetes: Léu (poesia, 1988); A Cidade e as Ruas (poesia, 1992); A Provocação Pós-Moderna (ensaio teórico, originalmente tese de Doutorado, 1994); Quase Sertão (poesia, 1996); Ana Cristina Cesar - O Sangue de uma Poeta (perfil crítico-biográfico, 1996); História do Peixe (poesia, 2001), Como e Por Que Ler a Poesia Brasileira do Século XX (ensaio introdutório destinado ao público não especializado, 2002). Organizou as antologias da editora Objetiva – Os Cem Melhores Contos e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (respectivamente 2000 e 2001). Compilou e organizou as Cartas de Caio Fernando Abreu, publicadas em 2002




[Poética]

Gosto da definição de poesia dada por Borges numa entrevista quando esteve no Brasil: “poesia é ritmo + imagem”. Gosto também da definição dada por Ana Cristina Cesar: “poesia é o contorno de uma sintaxe”. Me apaixona na poesia o que ela tem de erótica da frase, erótica pensada, pensamento erotizado, erotização do conceito. Nos poemas aqui apresentados, exploro esse tipo de busca (ou pulsão) na série “Grafias de um peixe”, que foi publicada noutra versão em minha plaquete História do Peixe (Col. Moby Dick). Em “Milonga”, trabalhei dentro do verso tradicional cantabile, buscando imagens perpassantes. E “Clearly non-glossy” é um título que faz uma alusão a Fernando Pessoa. Prezo muito o poema “Comentário musical”, de Manuel Bandeira, como bússola poética, espécie de ideal a partir do qual desvio, desviaria, desviara. Quero grafar descaminho, tendo por pano de fundo “sussurro sinfônico da vida civil”.


3 comments:

dionisios ditirambicos said...

anáfora - falta de fumaça - ao ler os signos.

Moriconi - imagem acustica - signo de um peregrino-poeta-hedonista.
será:?

italo said...

sim, me agrada essa definição, peregrino hedonista - mesmo estático

Louise Lou said...

"Desbrasileirar geral". Isso é bom. Nunca havia ouvido antes.