Wednesday, September 20, 2006

WILSON BUENO

FOTO BY VILMA SLOMP

poemas






coreografia
deitamos os mortos
nas mais distantes colinas
bem longe de casa

para daqui ver o quanto
se equilibram no horizonte
*
passagemviemos de longe
nosso avô muito doente
arrastando as pernas

depois o varal da noite
no lençol nosso avô dentro
*
sol & chuva
chuva de verão
de sol todo o céu vacila
tule da neblina

vento verde nos ciprestes
do chão a tarde amanhece
*
mudançaminha mãe nas costas
atravessamos aldeias
mais de cem quilômetros

tanto a levamos nos braços
que agora somos aéreos

voltachove a chuva fina
lua névoa na neblina
chegamos a Ikedo

a casa de nossos pais
céu brincando de brinquedo
*
jóia
viveu encantado
no coração da montanha
um lilás alado

em fuga da rocha triste
fende teu colo a ametista
*
exercício escolar
trinta tigres trêfegos
são mais que três tigres tristes
decora o menino

depois dorme mansamente
e sonha com passarinho

Tankas ,de Wilson Bueno, extraídos do livro Pequeno Tratado de Brinquedos composto por 58 deste nipo-artefatos poéticos, obedecida rigorosamente a métrica oriental (5/7/5/7/7) –
( Iluminuras, SãoPaulo/ 1996/ 2ª edição – Iluminuras/2003 )








BREVE NOTÍCIA BIOGRÁFICA


Wilson Bueno, 57, considerado um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, tornou-se nacional e, em certos círculos, internacionalmente conhecido, com o lançamento, em 1992, da novela “Mar Paraguayo”, (com antológico prólogo de Néstor Perlongher), publicada originalmente pela editora Iluminuras, de São Paulo, onde em portunhol – um mix de espanhol, português e guarani – conta-se a vida de uma sofrida mulher e “el viejo”, com quem ela vive, em Guaratuba, no litoral do Paraná. Em contraponto, a paixão por “el niño” – surfista e jovem. Perfeita metáfora das canhestras ditaduras latino-americanas, proliferantes, um tempo, em “nuestra America”. Recentemente o livro teve a sua primeira edição internacional, pela prestigiosa Intempérie Ediciones, de Santiago do Chile. A edição argentina acaba de sair (outubro/2005) pela editorial Tsé-Tsé. A mexicana sai em dezembro próximo, pela editorial Bonobos, apresentada por Eduardo Milán. Em Cuba foi publicado por Ricardo Alberto Pérez. O livro foi adaptado ao cinema por Nivaldo Lopes, no média-metragem de mesmo título. Está sendo traduzido, por Erin Moore, para a Oxford Press University – em francenglish e mohwac ( este fazendo as vezes do guarani original). Objeto de seminário, no segundo semestre de 2005, na Universidade da Sorbonne, conduzido pelo Prof. Dr. Pedro Araya ( Paris IV).


Autor também de “Manual de Zoofilia”, textos que refletem a mitopoética do amor erótico humano, considerado, entre outros, pelo crítico Uilcon Pereira, como “uma pequena grande obra-prima”. A marca maior deste escritor, nascido em Jaguapitã/PR , em 1949 ,– mas profundamente curitibano por sua vivência e formação – , é a da inquieta e infatigável busca de um rendimento máximo dos recursos de que dispõe a literatura.


E nesta direção Wilson Bueno tem tido até aqui enorme êxito – seja no romance “Cristal”, lançado pela editora Siciliano, em 1995, classificado por Jairo Arco e Flexa, na revista Vip/Exame, como “superior a um filme de Tarkóvski”, seja nos textos de “Jardim Zoológico” (Iluminuras, 1999), apresentados por Arnaldo Antunes, seja nos 58 tankas de “Pequeno Tratado de Brinquedos”, com apresentação de Alice Ruiz e consagrador posfácio de Leo Gilson Ribeiro ( professor pela Universidade de Heidelberg/Alemanha), também publicado pela Iluminuras, ou no festejado “Meu


Tio Roseno, a Cavalo”, livro que põe em pauta a questão da terra e do latifúndio no Brasil, finalista do Prêmio Jabuti de Romance – 2001, com prefácio de Benedito Nunes, um dos maiores mestres vivos da ensaística nacional, novela lançada pela editora 34, no ano de 2000, e que segue recebendo a unanimidade do elogio crítico brasileiro. O livro foi escolhido como título obrigatório do Vestibular Unificado da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS.


É autor também do livro ( destinado a crianças de 0 a 100 anos) – “Os Chuvosos”, primorosa edição da “Tigre do Espelho”, dirigida pela poeta e designer brasileira Jussara Salazar. Segunda edição a sair, em revolucionário projeto gráfico pela editora Lumme. Disponível na internet, como livro virtualmente folheável, marcado por inusitados efeitos sonoros e visuais no site
www.cronopios.com.br Em “cronopinhos”.
Apresentado aos leitores brasileiros pelo poeta Paulo Leminski, em 1986, com a reunião dos “contos-blues” de “Bolero’s Bar” (Criar Edições), Wilson Bueno desde lá só fez aprofundar o caminho que o coloca hoje, sem erro, no primeiríssimo time da literatura brasileira.
Bueno foi também o criador e editor por oito anos do suplemento de idéias “Nicolau”, inúmeras vezes premiado, inclusive com o título de “Melhor Jornal Cultural do Brasil”, pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, em 1987.
Em 2000, pela vigência de um ano, ganhou a Bolsa Vitae de Literatura, da Fundação Vitae, a mais expressiva bolsa literária brasileira, com o romance publicado pela editora Planeta - “Amar-te a ti nem sei se com carícias”, finalista do prêmio Zaffari e Bourbon de melhor romance publicado em língua portuguesa no biênio 2003/2004, concorrendo ao lado de José Saramago, Eduardo Agualusa, Chico Buarque de Hollanda, entre outros. A Bolsa Vitae, necessário acrescentar, foi postulada, nesta sua versão, por mais de 2 mil candidatos de todo o País.
Também pela editora Planeta, de quem é autor exclusivo, acaba de publicar o livro de fábulas “Cachorros do Céu”, primoroso projeto gráfico de Vanderlei Lopes, com ilustrações de Ulysses Bôscolo com acordado prefácio do ensaísta Ivo Barroso.– um dos dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2006.
Integra “Medusario” (México, Fondo de Cultura Económica) rigorosa seleta da mais recente produção latino-americana ( organizada por José Kozer, Jacobo Sefamí – professor da UCLA – e Roberto Echavarren – poeta e ex-professor da NYU – ), representando o Brasil, ao lado de Haroldo de Campos e de Paulo Leminski.
É cronista dominical do jornal O ESTADO DO PARANÁ, um dos principais jornais do Paraná. É colaborador regular do caderno Cultura do jornal “O Estado de S. Paulo” (M.F. F.)

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Bibliografia
*Bolero’s Bar ( Criar Edições, Curitiba, 1986 ).

*Bolero’s Bar/Diário Vagau (2ª edição/ Travessa dos Editores/ projeto gráfico de Paulo Sandrini, a sair)

*Manual de Zoofilia ( Noa Noa, Florianópolis, 1991 ).

*Ojos de Agua ( El Territorio, Argentina, 1992 ).

*Mar Paraguayo ( Iluminuras, São Paulo, 1992/Santiago do Chile, 2002/ Tsé-Tsé, Argentina, 2005/ Editorial Bonobos, México, 2006 ).

*Cristal ( Siciliano, São Paulo, 1995 ).

*Pequeno Tratado de Brinquedos ( Iluminuras,1996 ).

*Medusario/ Mostra de Poesia Latinoamericana ( antologia, Fondo de Cultura Económica, México, 1996). Organização de José Kozer, Roberto Echavarren e Jacobo Sefamí.

*Jardim Zoológico (Iluminuras, 1999).

*Os Chuvosos ( Tigre do Espelho, Curitiba, 1999). A sair, com revolucionário projeto gráfico da editora Lumme. Pocket book na internet em www.cronopios.com.br

*Meu Tio Roseno, a Cavalo ( Editora 34, São Paulo, 2000).
(Finalista do Prêmio Jabuti 2001)

* Once Poetas Brasileños ( ediciones Cetrería, 2004, Havana/Cuba).

*Amar-te a ti nem Sei se com Carícias - ( romance premiado com a Bolsa Vitae de Literatura 2000, editora Planeta, São Paulo, 2004. Finalista do Prêmio Zaffari e Bourbon de melhor romance publicado em língua portuguesa no biênio 2003/2004).

* Cachorros do Céu – ( livro de fábulas, editora Planeta, 2005). Finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2006.

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Jogos de Jogar
( testemunho poético )

Wilson Bueno


No rico fabulário celta há um duende que vibra, em exclusivo, na epifania, sendo ela mesma, a epifania, uma severa manifestação da divindade, quase um “ente”, digamos assim, do encantamento. Sabe-se o quanto, para os druidas, a natureza era dotada de um alma imortal, e de como todas as coisas alimentavam-se de sua própria e irretocável essência.
Assim me parece, desde sempre, a literatura, um vero exercício de magia. Muito além do tatibitate minucioso com que os acadêmicos tentam, em vão, engessá-la ou o instrumento que dela procuram fazer, – muito menos hoje do que ontem, felizmente –, engajados de toda sorte – de atrapalhados comunistas a histriônicos nazi-fascistas, sem contar o sem número de minorias facciosas, sempre prontas a trocar os fins pelos meios na defesa intransigente de seus bocados.
Ao referir, pois, o espaço encantatório da arte – e, de todas as artes, a literatura sugere constituir a mais propícia a estes endiabrados jogos ilusionistas, sobretudo pelo que solicita de ativa participação do leitor, num ludismo de duplos que a um tempo se procuram e se recusam – não estamos falando nada mais, nada menos, do que de liberdade – precisamente ali onde tudo pode, desde que obedecidas as incontáveis regras do jogo. Liberdade sem responsabilidade, na arte como na vida, sabemos, é só uma canhestra inconseqüência.
Cedo, o ofício de escritor – inextricavelmente associado ao ofício leitor – me pegou, sem arrependimento nem volta, por esta via – a do mistério gozoso de sua fruição, o que os tardo-românticos brasileiros chamaram, enganosamente, a meu ver, de enlevo.
Ao contrário de muita gente, não comecei por Monteiro Lobato, mas pelo hoje bem esquecido Viriato Correia, autor de grandes títulos da literatura dita infantil e, ao menos, de um clássico – o impagável “Cazuza” (1938). Claro que o li numa das suas sucessivas reedições, acho que de 1959 ou 1960, e o menino pobre, filho de pais migrantes e lavradores, migrante ele mesmo, parece haver encontrado ali um prazer superior e enfeitiçado.
O mundo não se limitava mais à casa alugada e de quartos sub-locados na Curitiba de então, centro urbano chinfrim, mas centro urbano, ao contrário de Jaguapitã, a aldeia caipira que me viu nascer no norte paranaense, e que na língua dos índios quer dizer “cachorro vermelho”. Índios estes que igualmente muito cedo introduziram renovados elementos de inquietação e encanto, provendo a imaginação não pequena do menino pé-vermelho, de uma dimensão para sempre embruxada. Tataraneto de índia guarani caçada a laço no interior paulista do século XIX, de mãe para filho histórias e feitiços foram transmitidos sob a forma de uma herança original e indissolúvel.
Não precisa dizer o quanto “Cazuza” se colocou como um rito de passagem – sendo o primeiro livro lido, teve igualmente a capacidade primeira e imprevistamente extraordinária de alterar tempo e espaço. Ao arrancar-me da infância o mais das vezes esquiza, de uma solidão pontuada pelo solilóquio e o logro, e, já ali, pela decifração do formidável enigma de estar vivo, junto trouxe a saída – salvava-me de mim mesmo, ainda que de modo precoce, ao apontar para o que, na imaginação, não era só devaneio ou capricho fantasioso.
Havia uma ordem na aparente desordem imaginativa – e esta era o sonho construído palavra a palavra grafadas umas seguidas das outras sobre uma folha de papel. Aquilo era a suprema liberdade e, ao mesmo tempo, o gozo epifânico de um quase pequeno índio aturdido que até então se perguntara, sem respostas, pelo avesso do céu.
Uma vez encontrada a saída, restava ao pequeno leitor tornar a palavra lida, outra vez, quem sabe, palavra escrita, com o dom imensurável da invenção e da fábula. Independente de sua validade ou mérito, que não vem ao caso neste depoimento, nascia o escritor.
As palavras, as de sempre, em estado de dicionário, buscam, ainda hoje, o personagem, a cena, a ação, a urdidura da fábula, quero crer que com a mesma inocência original. Não que o autor delas não tenha, ao longo da aventura humana até aqui, perdido de vez a inocência. Perdeu-a, sim, inapelavelmente. Mas é, sem erro, esta busca, o mais das vezes “inútil e vã, mal irrompa a manhã”, para lembrar o poema emblemático, que fundamenta e legitima o que se poderia chamar, sem rodeios, de o processo criativo em que me incluo.
Nós, os escritores, estamos sempre buscando a palavra exata, o verbo mais limpo. Ocorre-me, contudo, que por trás desta busca, há uma perseguição ainda mais essencial, e nem sempre consciente – a que se traduz no encalço da palavra que, sendo a mais inocente, será forçosamente a mais expressiva, capaz de revelar mundos e o deus que mora dentro dela – em quieto segredo. Talvez daí a incoercível vocação poética que, desde sempre, me animou a prosa modesta, ainda que esforçada.
O menino que guardava vaga-lumes num vidro e que pacientemente esperava a noite para ver, no escuro dos quintais daquele tempo, como acendiam, num balé de faísca e luz, possivelmente seja o mesmo, ainda hoje, que, pelo fascínio das madrugadas, deixa que invada a tela luminosa do computador, todas as asas, todos os vezos e todos os insetos. Com ou sem dor.
Feito o celta antigo, aquele, para quem a epifania era, em si, um deus que morando na alma imortal das coisas, permitia que medrasse, na dobra delas, a sua música íntima, e imperecível. Como um jogo de jogar.


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2 comments:

manoel r. de lima said...

wilsissímo, grande sujeito.
a passagem por curitiba foi tão veloz que não deu pro café. fica pra uma próxima. e bom demais ver estas novidades aqui.
abraço-abraço.

Anonymous said...

Manuelíssima criatura,
ói nóis aí de Barcelona pro mundo, via Cristobo... Lamentei não ter podido ir ao lançamento do livro de Julinha. Estava viajando, correndo atrás das micharias...
Pena vocês não terem vindo nos feriados ao Palacete do Tico-Tico.
O abraço grande do
WB