Monday, September 04, 2006

ÉRICO NOGUEIRA




mencionado por:Ricardo Domeneck

menciona a:
Caio Gagliardi
José Rodrigo Rodriguez


poemas:

Prezado Aníbal: Pretendendo participar de um concurso de poesia que proíbe a exposição pública, impressa ou virtual, mesmo de parte da obra concorrente, peço-lhe encarecidamente que retire o meu perfil do blog "Escolhas afetivas",já que os poemas que lá constam também fazem parte do livro com que concorrerei. Desde já muito obrigado.
Érico Nogueira.

bio/biblio
Nasci em Bragança Paulista em 1979. Sou formado em Filosofia e termino o mestrado em Letras Clássicas na USP. Sou tradutor de diversas línguas: meu último trabalho é uma antologia do poeta francês Charles Péguy, a ser publicada em breve. Meu livro de poemas é recém-acabado, de modo que ainda está inédito: O livro de Scardanelli.



Poética pessoal
A idéia que tenho do poeta – do poeta, digo, não do poema, que pode ser mais ou menos bem sucedido se se tem o mínimo de sensibilidade, alguma leitura e certa técnica – é a de alguém que quer fazer o inventário mais exaustivo possível das experiências humanas. Para tanto, me parece conveniente que leia em muitas línguas e não tenha medo dos clássicos – pois se é que os clássicos têm uma virtude, é precisamente a de amalgamar de modo exemplar, didático até, tais experiências. Os poetas, os verdadeiros poetas, “são os que gritam quando tudo cala”, para ficar com Jorge de Lima. Que isso tenha ou não respaldo público hoje em dia, que pareça démodé ou romântico demais, não faz a mínima diferença. Se o poema não for a expressão do orgasmo tido e calado e portanto incompreendido, é masturbação ou exibicionismo – é nada.




2 comments:

ricardo domeneck said...

se todos os que se propôem o trabalho que vc., de certa forma, faz, soubessem realmente fazer o que vc. sabe, de fato, fazer, a poesia brasileira seria melhor, muito melhor, livre ao menos da incompetência e preguiça dos que bradam "técnica!" & "tradição" mas mal conhecem a ponta do próprio nariz. nós discordamos em tantos pontos, mas eu sempre respeitarei o fato, simples e claro, de que vc. faz muitíssimo bem aquilo de que discordo.

JOSE RODRIGO said...

Para além do óbvio - o cultivo de formas clássicas, o diálogo com a tradição germano-greco-romana - a poesia de Érico encena a dor de dizer o mundo.

Os recursos poéticos impressionantes de que se utiliza fazem desconfiar do poder das palavras. Será mesmo possível dizer as coisas? Só faz sentido fazê-lo assim, como ele faz, por mediações complexas, formas elaboradas, enigmas e alegorias?

E se a empresa é tão difícil, será que o mundo existe realmente? Ou restam apenas fragmentos? Cantar uma ode neste século XXI sem assuntos elevados, olhar para a janela em busca de faias e faunos, recusar radicalmente qualquer coloquialismo.

Não há nada de erudito na poesia de Érico Nogueira, apenas o desconfiar das palavras e de sua relação com as coisas.

Seu mister é o dizer tortuoso e oblíquo, antípoda da naturalidade grega. Sua poesia encena o sofrimento do poeta perante um mundo que resiste, cada vez mais, a qualquer tentativa de figuração.

Desarmado de formas estratificadas e referendadas pela tradição, Érico recorre a elas para instaurar a tensão constitutiva de sua escrita.

Às vezes eu gostaria de ouvi-lo falar das pessoas e das coisas com mais desenvoltura e espontaneidade. Mas ele não pode. Sua relação com a linguagem nunca o permitiria.

O que nos aproxima como poetas também nos separa. Minha relação com as palavras é contraditória, cômica. A de Érico dramática. Palavras e formas são o herói de seu romance inconcluso, que renova suas estórias a cada verso.

Eu gosto de trafegar na fronteira do poético e do não poético. Desconfio das palavras rindo. Érico é poeta sempre. Não vê graça em coisas de que morro de rir. Vive a fratura entre mundo e discurso com toda a intensidade, para o bem ou para o mal, desconfiado das palavras sempre, mas de outro jeito.

No entanto, desconfio, se nascido e criado em Atenas clássica, entraria no barril com Diógenes. Só pode ser poeta hoje, vivenciando esta fratura. E precisamos dele hoje, como dos imprescindíveis Alexei Bueno e Bruno Tolentino, entre outros escritores que negam ambiguamente o mundano para evidenciar o abismo que separa as palavras e as coisas.

Benditos sejam todos os filhos de Hegel. Quando o mundo entra em risco pela falta de uma experiência comum, é preciso ler seus poemas repetidamente, sempre em voz alta. Melhor seria que os decorássemos e queimássemos todos os livros para buscar restaurar o mundo e, com ele, a força das palavras.

Voltaremos um dia a gozar desta segurança? Ou se trata de uma ilusão retrospectiva? Melhor do que responder a estas perguntas é escrever mais versos e cantar novas odes. Pois ainda podemos sonhar em instaurar um mundo nesta performance:

“Um lume chega – ou vem do alto, ou vem de baixo,
a treva, devagar, expele um novo dia;
sorriem bocas, mas num outro pasto,
que neste não há boca que sorria.”