Monday, September 18, 2006

LÍGIA DABUL

foto: João Palmeira
mencionada por:
André Luiz Pinto
Sérgio Alcides
Paula Padilha
menciona a:
(Menciono quem ainda não está aqui)

Ademir Assunção

Laura Erber
Paula Padilha
Flavia Rocha
Ana Peluso
Mônica de Aquino



poemas


MUSTH

Tudo esquematizado. Abandonar
a música. Ficar só com os músculos.
Abastecer com urros a manada
de meninos tomados pelo rumo.
Defesas, tromba, másculas batidas,
dor onde ninguém pode chegar perto:
na imaginação de uma divisa,
na agonia infinita porque quer
que passe logo rápido mas volta
o primeiro desejo de ser nela.
O amor está sozinho mesmo agora
que o corpo não comporta tanto. Resta
catalogar mais uma variante
de viver, esse lapso de elefante.



MEL


O cheiro doce e a abelha ali grudada.
Na tarde não havia nada firme
que pudesse conter alguns cuidados:
tentamos umas flores. Mas mantínhamos
a porta aberta e o vento encaminhando
tudo. Por isso o cheiro doce imenso;
daí ser necessário que crianças
ficassem afastadas por um tempo.
Tanto era o cheiro terno que a primeira
garota obediente desistiu.
Estava presa ao fruto de uma abelha
e as asas da vontade apareciam.
Os meninos queriam de verdade.
Tivemos que fechar a porta rápido.



PREAMAR


O Rio de Janeiro assa. Vai
chover. Meninas fervem pelas bordas.
Há quem voe no afã da fuga. Nada.
Mamíferas emergem dando corda:
não senti o arpão bífido daqueles
olhos. Nem me afastei de nenhum barco
por amor. A malina encobre meus
desejos incompletos. Pelo mar
deslocam-se surpresas. Venta mais.
Vai chover e a cidade arde demais.
Experimento as bordas das meninas.
O pescador imita a minha cria
com gemido eletrônico. Confundo-me
com os gritos. Despeço-me de tudo.




bio/biblio

Lígia Dabul nasceu e vive no Rio de Janeiro. É professora e faz pesquisas em Sociologia e Antropologia da Arte na Universidade Federal Fluminense. Publicou, dentre outros trabalhos, Um percurso da pintura (Eduff, 2001), etnografia sobre identidades de artista.
Em 2005 publicou o livro de poesia Som (Editora Bem-Te-Vi). Tem poemas em jornais e revistas, como Poesia Sempre, Et Cetera, Babel, Cacto, Jandira, Panorama da Palavra, Gazua, Rattapallax e os virtuais Zunai, Algaravária, Sèrie Alfa, Al Margen.


5 comments:

leonardo gandolfi said...

Beleza, hein!

Anonymous said...

Gosto muito da poesia de Lígia Dabul.

Claudio Daniel

diego vinhas said...

cada vez melhores. parabéns!

Anonymous said...

ligia, sabe que nunca li coisa tua... adorei esses três. essa história de blog é incrível, né, tem muito poetas pra conhecer na rede. essa troca pode ser revolucionária, viu, perigosíssima, e é pra dar golpe poético na tecnologia mesmo. hehe. beijo.

Rosa Damasceno Paranhos said...

Perfeito!! os Poemas de Ligia me fazem acreditar que tudo vale a pena se a alma ñ é pequena.