Wednesday, September 27, 2006

MARCOS SISCAR




menciona a
(Poetas ainda não citados)
Masé Lemos
Adalberto Müller
Flávia Nascimento Falleiros
Luís Bueno
Rodrigo Magalhães




poemas


TIGELA DE ÁGATE

Você fechou a janela, desceu as escadas e disse em prosa que se sentia bem embaixo, no pátio aberto, perto da porta. Você desceu o lixo, olhou o pássaro, brincou de cabra-cega com as crianças do pátio. Então, pediu-me que servisse a sopa numa tigela de ágate. A morte com dor não vale a sopa numa tigela de ágate. O mundo reduzido ao essencial. Isso a faz morrer de rir. O essencial, você me diz, cabe numa tigela de ágate. O que quis dizer com isso? Que essencial não há, ou muito pouco, que no fundo não importa, ou que de fato está nesta tigela de ágate? Desde então, a dúvida me impede de dizer meu nome. Com a sola dos pés procuro o fundo da terra sob um brejo de taboas. Cada vez que me perguntam que fundo é esse, as entranhas me gelam, a discrepância me invade. Sinto o fundo e ele me abala. Toda uma sismologia. Viajo sem ter vontade. Em cada lugar por onde passo, quero de mim uma nova coragem. Certa vez, você me acenou de longe, ao pé da plataforma, com os olhos vermelhos. Você que nunca chorava. Quis exilar-me em você. E talvez eu fique aqui, nesse boteco de luz amarela, no meio da amazônia, até o fim dos tempos. Mal penso nisso, o galo ainda não cantou, você já se estendeu ao longo do meu corpo, se derramou sobre mim e eu a contive. Você cabe em mim tão completamente. Ouço a sua voz fraca, perdida no percurso da garganta. O poema deve ser escrito com sangue? Pois que o sangue seja vivo, vermelho pêssego, turquesa, esmeralda. Foi então que você perdeu a voz, olhou de lado, fechou-se muda. E sobre as pálpebras cerradas palpitam veias de um sangue veloz. Diga-me: quanto sangue será necessário para aplacar o seu silêncio?

(O roubo do silêncio, 2006)



DIABO TRISTE

o diabo tem um olhar triste em que moram
pesados devaneios irmãos de todas as coisas
meu irmão mãos malhadas de passar a ferro
uma eternidade de palavras pernas magras
cruz de sua sede irrefletida os ombros curvos
sobre o pulmão o gesto fogueira do desejo
luzes foscas no cabelo as veias secas
como fontes em que o amor não entra mais
por mais que suplique não se tira o amor
não entra ar não sai não se tira mais seus ais
e sobre o corpo prometido a cal e argila
se imobiliza enfim uma alegria intransitiva
deus é seu hospital

(Metade da Arte, 2003)




JARDIM À FRANCESA

eu com minha idade sentado num banco de praça
meu coração era do tamanho do mundo
feito do seu elemento de água rumor e ornamento
duas alamedas duas fontes se escorrendo
meu coração era do tamanho deste mundo
ora assim igual a si mesmo ora se
desconhecendo
mas meu coração é menos perfeito do que esta praça
às vezes se lembra e dificilmente
da hora exata do retorno do tempo
meu coração às vezes tropeça projeta uma perna
sobre a outra
se interrompe mudo parece
que pensa

(Não se Diz, 1999)





BIO/BIBLIO

“(...) Observo o tempo longamente carregar o meu desejo, aquilo que me excede carregar-me, às margens da capital. Quero sempre estar nas fronteiras de onde as coisas valem. Sou pobre, pobre, pobre. Proprietário indeciso do valor e doador universal, sangue a dispersar-se em todas as veias. Diga-me que ainda sou seu.” (O Roubo do Silêncio, 2006)

Poesia: Não se Diz (1999), Tome seu café e saia (2001), Metade da Arte (2003), O Roubo do Silêncio (2006).

Tradução: Os Amores Amarelos, de Tristan Corbière (1996); A Rosa das Línguas, de Michel Deguy (2004, com P. Glenadel); Os Animais de Todo Mundo, de Jacques Roubaud (2006, com P. Glenadel).




SOBRE POESIA

Poesia é aquilo que faz a diferença. Quando estou cansado de mim, por exemplo, a poesia me reinventa, me prolonga, me desloca. A poesia é aquilo que muda o tom, é um salto adjetivo. A poesia foi feita pra chutar o balde da história.

5 comments:

Pesa-Nervos said...

oi Marcos, que bom que está aqui também! Um abraço, Franklin

Heitor said...

Marcos, legais os poemas, faltou o inédito... Mas o melhor verso para mim, bom, vamos lá, com alguma alteração, é: A poesia foi feita pra chutar o balde! Abraços, Heitor

carlito said...

siscar, que bom te reencontrar por aqui... semana que vem nos veremos lá na casa rui, né? mas agora quero dizer: como é legal te ler em qualquer circunstância...
abraços
carlito

dionisios ditirambicos said...

nervos a ner age
saturados de nao ter links
sua poesia é exuberante.
mas...
tudo pode ter mais moviimento.

josy said...

comentar você e dificil heiiiiiiii
mas não tem problema você merece e eu so quero lhe desejar cada vez mais paz,luz e muita mas muita sorte em sua vida você realmente e merecedor de tudo que tem.

sejas sempre feliz e parabens