Monday, September 11, 2006

JÚLIO LIRA





menciona a
Eli Castro
Ruy Vasconcelos
Rodrigo Marques
Fernando Paixão
Nuno Ramos
Carlos Augusto Lima




poemas


na neblina, angelopoulos


atrás da neblina
há uma casa
eu sei
você não vê:
aparece apenas a cerração
apenas um dia
em que nada se vê
além de nós mesmos
e o chão onde pisamos:
mas já é muito
e eu sei
eu ouço:
algum vizinho
- talvez cego -
toca na sanfona
uma história triste de amor:
também por isso
eu sei -
e algum radar primordial
sustenta tal certeza:
atrás da neblina
há uma casa




A partir de Kapa

Azul de granada, amanhã franceses e alemães descerão à praia. Neste
instante, um cadáver - o cobertor de barras listradas –
com braços e pernas desabadas empurra à frente os ombros
circunflexos e a cabeça raspada da menina. Um olhar curto
(qualquer desenho de horizonte é desmentido) preso à calçada. Só
a sombra, em diagonal, estende-se.





Angular

Um homem submergindo na poltrona.
Outro diante dele,
talvez ele mesmo.
Distante, numa cadeira, o terceiro;
este é outro, mas ainda assim,
talvez, também ele.


2.
Luz amarfanhada; microscópicas
aranhas agarrando-se à superfície na
procura de muco e outros detritos.
A carne frouxa: o olhar do outro oblíquo, teso:
O do último em ágeis,
ínfimos
movimentos.

3.

Dizem os vegans
a vaca injeta-se adrenalina,
vingança na hora do abate.
Na poltrona,
o homem exangue.

4.
O outro circula
procurando diferentes de-onde.
O terceiro, silencioso,
fincado na distância,
observa,
inclusive
o ato de observar.

5.

O espaço é o mesmo,
mas não é comum.
Não fossem as teorias pós-quânticas
diria-se qualquer conexão deixará de existir.

6.
O homem sentado na poltrona
assemelha-se ao da cadeira.
Cada um caricatura do outro
7.
Aos dois
é dada
a possibilidade
de levantar-se
e
sair.
Não o fazem.
Este espera
por
um choque elétrico.
Aquele,
pela
luz.

8.

O homem em pé, confortável,
anda
como se
numa festa rodeado de amigos.
Sabe exatamente o que fazer,
se não soubesse, ainda assim
estaria à vontade.


9.


O ventilador,
sobre um banco, gira
tornando a temperatura
amena. Do
lado de fora,
ruídos ininteligíveis.




bio/biblio
Júlio Lira trabalha no trânsito de linguagens como fotografia, texto, ação urbana. Usa a dispersão como método.






poética
Poema é lego. Acredito nisso. Mexo com isso. Coisa plástica, ação física, quando menos, tridimensional. Lego fincado nas paredes de um buraco, com rasuras escavocando o que está dado. Dessa passagem, o texto pode ganhar vida e se jogar para fora da literatura, um parasita pronto a se instalar e procriar, ganhando sangue nas situações mais corriqueiras. Monstrinhos, virus, poemas.

6 comments:

Anonymous said...

é isso aí julio. gostei mesmo dos poemas. dos legos.
eduardo.

thiago fonsêca said...

gostei do angular. vi como suas pecinhas de lego soltas, sozinhas, mas com um encaixe à espera de acontecer - já acontecendo.

Heitor said...

Júlio,
gostei muito dos poemas. acho que vou comprar uma caixa de legos!
abs, Heitor

Ayla Andrade said...

Tem uma voz mansa que me fala ao ouvido e é doce e por dentro me diz rocha. e por dentro me diz lago.
Tem uma voz mansa e gargalhada como riso.
Tem uma voz mansa e me espeta com seus olhos através dos óculos, mas ainda tem uma voz mansa.
Tem uma voz mansa que é sopro de montanha e cordas de lira.

afonso alves said...

Gostei das montagens.
nao siga o manual.

Anonymous said...

ah, então é daqui que eu te conheço!! rs!! não lembrava de onde era, mas sabia que gostava muito. Lindos poemas!

marcão.