Monday, September 18, 2006


GLAUCO MATTOSO

menciona a
Andityas Soares de Moura
Braulio Tavares
Antônio Cícero
Domingos Pellegrini


poemas



SONETO COLETIVO [23/12/2005]

Num ônibus lotado embarca a bela
menina e custa a andar no corredor.
No ponto, até chegava ela a supor
que iria se sentar junto à janela!

Ninguém mais cavalheiro se revela,
sequer alguém que descer perto for.
A moça cruza o olhar do cobrador,
numa expressão que, mudamente, apela...

Não pode o funcionário fazer nada,
exceto comentar com um rapaz
que a gente já não é bem-educada...

Concorda o cara e, logo, por detrás
da bunda dela esbarra, e uma encoxada
a menos ou a mais... ah, tanto faz!


SONETO RESGATADO [29/12/2005]

Verídico, é o que consta, e não duvido
do caso em que um casal cai na cilada.
Com uns, a sacar grana, ela é levada
enquanto outros mantêm preso o marido.

Num sujo banheirinho ele é mantido
no chão, mãos para trás, junto à privada
e, quando alguém vai dar uma mijada,
respinga-lhe no corpo já fedido.

Maconha fuma um deles, o mais jovem,
com cara até de filho do refém,
e é dele que os pisões mais fortes chovem.

As solas dos pivetes se detêm
no rosto, e, antes que a língua lhe comprovem
na rola, vai lamber tênis também.




bio/biblio
Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias. Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951),o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), além de aludir a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Após cursar biblioteconomia (na Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e letras vernáculas (na USP), ainda nos anos 70 participou, entre os chamados "poetas marginais", da resistência cultural à ditadura militar, época em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poético-panfletário JORNAL DOBRABIL (trocadilho com o JORNAL DO BRASIL e com o formato dobrável do folheto satírico) e começou a colaborar em diversos órgãos da imprensa alternativa, como LAMPIÃO
(tablóide gay) e PASQUIM (tablóide humorístico), além de periódicos literários como o SUPLEMENTO DA TRIBUNA e as revistas ESCRITA, INÉDITOS e FICÇÃO.

Durante a década de 80 e o início dos 90 continuou militando no periodismo contracultural, desde a HQ (gibis CHICLETE COM BANANA, TRALHA, MIL PERIGOS) até a música (revistas SOMTRÊS, TOP ROCK), além de colaborar na grande imprensa (crítica literária no JORNAL DA TARDE, ensaios na STATUS e na AROUND), e publicou vários volumes de poesia e prosa.

Na década de 90, com a perda da visão, abandonou a criação de cunho gráfico (poesia concreta, quadrinhos) para dedicar-se à letra de música e à produção fonográfica, associado ao selo independente .

Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do século, a produzir poesia escrita e textos virtuais, seja em livros, seja em seu sítio pessoal ou em diversas revistas eletrônicas (A ARTE DA PALAVRA, BLOCOS ON LINE, FRAUDE, VELOTROL, CAPITU, CRONÓPIOS, GLX) e impressas (CAROS AMIGOS, OUTRACOISA, G MAGAZINE, DISCUTINDO LITERATURA).
Jamais deixou, entretanto, de explorar temas polêmicos, transgressivos ou politicamente incorretos (violência, repugnância, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de "poeta maldito" e lhe inscrevem o nome na linhagem dos autores fesceninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire ou Genet.

Em colaboração com o professor Jorge Schwartz (da USP) traduziu a obra inaugural de Jorge Luis Borges, trabalho que lhes valeu um prêmio Jabuti em 1999. Nesse terreno bilíngüe GM tem-se dedicado a outros autores latino-americanos, como Salvador Novo e Severo Sarduy, e tem sido traduzido por colegas argentinos, mexicanos e chilenos.

Em vídeo, GM foi entrevistado ou convidado, entre outros, dos programas "Metrópolis", "Vitrine", "Fanzine", "Provocações", "Matéria Pública" e "Musikaos" (TV Cultura), "Sem Frescura" e "Palavrão" (Canal Brasil), "Circular" e "Saca-Rolha" (Rede 21), "Saia Justa" (Rede Mulher) e "Literatura" (redes SENAC e Educativa).

Segundo Pedro Ulysses Campos, "A poesia de Glauco Mattoso pode ser dividida, cronologica e formalmente, em duas fases distintas: a primeira seria chamada de FASE VISUAL, enquanto o poeta praticava um experimentalismo paródico de diversas tendências contemporâneas, desde o modernismo até o underground, passando, principalmente, pelo concretismo, o que privilegiava o aspecto gráfico do poema; a segunda fase seria chamada de FASE CEGA, quando o autor, já privado da visão, abandona os processos artesanais, tais como o concretismo dactilográfico, e passa a compor sonetos e glosas, onde o rigor da métrica, da rima e do ritmo funciona como alicerce mnemônico para uma releitura dos velhos temas mattosianos (a fealdade, a sujidade, a maldade, o vício, o trauma, o estigma), reaproveitando técnicas barrocas e concretistas (paronomásia, aliteração, eufonia e cacofonia dos ecos verbais) de mistura com o calão e o coloquialismo que sempre caracterizaram o estilo híbrido do autor. A fase visual vai da década de 70 até o final dos anos 80; a fase cega abre-se em 1999, com a publicação dos primeiros livros de sonetos."

///

BIBLIOGRAFIA RESUMIDA (atualizada até 2006)

"Apocrypho Apocalypse" (poesia) 1975
"Maus modos do verbo" (poesia) 1976
"Jornal Dobrábil: 1977/1981" (poesia e prosa) 1981, reeditado em 2001
"O que é poesia marginal" (ensaio) 1981
"Revista Dedo Mingo" (poesia e prosa) 1982
"Memórias de um pueteiro" (poesia) 1982
"Línguas na papa" (poesia) 1982
"O que é tortura" (ensaio) 1984, reeditado em 1986
"O calvário dos carecas: história do trote estudantil" (ensaio) 1985
"Manual do podólatra amador" (romance) 1986, reeditado em 2006
"A estrada do rockeiro" (ensaio) 1988
"Rockabillyrics" (poesia) 1988
"Limeiriques e outros debiques glauquianos" (poesia) 1989
"As aventuras de Glaucomix, o podólatra" (quadrinhos) 1990
"Dicionarinho do palavrão" (dicionário bilíngüe) 1990, reeditado em 2005
"Haicais paulistanos" (poesia) 1992, reeditado em 1994
"Centopéia: sonetos nojentos & quejandos" (poesia) 1999
"Paulisséia ilhada: sonetos tópicos" (poesia) 1999
"Geléia de rococó: sonetos barrocos" (poesia) 1999
"Panacéia: sonetos colaterais" (poesia) 2000
"Melopéia: sonetos musicados" (disco) 2001
"Galeria Alegria" (poesia) 2002
"Dono meu: sonetos eróticos de Salvador Novo" (poesia traduzida) 2002
"Contos familiares: sonetos requentados" (poesia) 2003
"O glosador motejoso" (poesia) 2003
"20 sonetos netos y un poema desparramado" (poesia) 2003, no Chile
"Cavalo dado: sonetos cariados" (poesia) 2004
"Poesia digesta: 1974-2004" (poesia) 2004
"Pegadas noturnas: dissonetos barrockistas" (poesia) 2004
"Poética na política: cem sonetos panfletários" (poesia) 2004
"Cara e coroa, carinho e carão" (poesia) 2004
"Animalesca escolha" (poesia) 2004
"Delirios líricos" (poesia) 2004, na Argentina
"Peleja do ceguinho Glauco com Zezão Pezão" (poesia) 2004
"A planta da donzela" (romance) 2005


ALGUMAS ANTOLOGIAS

"Queda de braço: uma antologia do conto marginal" por GM & Maciel (1977)
"Antologia do poema pornô" por Cairo Trindade e Eduardo Kac (1981)
"O melhor do conto erótico brasileiro" por Nelson Faria (1982)
"My deep dark pain is love: a collection of Latin American gay fiction"
por Winston Leyland (1983, nos Estados Unidos)
"Antolorgia: arte pornô" por Cairo Trindade e Eduardo Kac (1984)
"100 haicaístas brasileiros" por Roberto Saito (1990)
"Artes e ofícios da poesia" por Augusto Massi (1991)
"Antologia da nova poesia brasileira" por Olga Savary (1992)
"Saciedade dos poetas vivos" por L. Míccolis e U. Faustino (1993)
"Os cem melhores poemas brasileiros do século" por Italo Moriconi (2001)
"Poetas na biblioteca" pelo Memorial da América Latina (2001)
"Na virada do século" por Cláudio Daniel e Frederico Barbosa (2002)
"Antologia de haicais brasileiros" por Napoleão Valadares (2003)
"Antologia pornográfica" por Alexei Bueno (2004)
"Paixão por São Paulo" por Luiz Roberto Guedes (2004)
"São Paulo em preto e branco" por Albuquerque & Junqueira (2005)


INÉDITOS

"Sonetário sanitário" (poesia)
"As mil e uma línguas" (poesia)
"Sonetrilha" (poesia)
"Pé na boca: sonetos fetichistas" (poesia)
"Incauta pauta: sonetos midiáticos" (poesia)
"Cinco ciclos" (poesia)
"Pelejas do cego puto" (poesia)
"Barulho na garagem: ensaios repercutidos" (ensaio)
"Teoria do soneto" (ensaio)
"O sexo do verso: machismo e feminismo na regra da poesia" (ensaio)
"Debochados debuxados" (conto)
"Concertos concretos: contos" (conto)
"Rudimentos de sadomasoquismo comparado" (ensaio e conto)

///


poética

SONETO DESPOLUTO [30/12/2005]

"Preciso despachar no gabinete",
assim se diz na hora de cagar.
Se cada coisa é feita em seu lugar,
o cargo dum político é retrete.

Além dessa metáfora, o tolete
reflete a perfeição dum lapidar
poema, do qual pode idéia dar
igual à da limpeza um sabonete.

Comparo a poesia a um digestivo
processo que, afinal, pouco difere
da forma de prover cargo eletivo.

Nem tudo que se come se digere,
e o voto consciente é o melhor crivo
que ao rio uma água limpa recupere.

///

2 comments:

afonso h r alves said...

nem preciso falar nada para este dinossauro da poesia.
Le Grand
Matoso
coberto de mato na crina ainda vista.

Anonymous said...

Aquí y allá he ido descubriendo parte de la obra enorme de Matoso.
Y aquí quedo, agradecida,
María Teresa Andruetto/Argentina