Saturday, December 01, 2007

ADALBERTO MÜLLER



mencionado por:Ricardo Pedrosa Alves
Marcos Siscar

menciona a:(5 bons poetas que não achei na lista)
Fernando Paixão
Maria Lúcia dal Farra
Mário Domingues
Ricardo S. Carvalho
Carlos Loria



poemas:



ENQUANTO VELO TEU SONO



Perception of an object costs
Precise de object’s loss.
Emily Dickinson


I
No silêncio da noite
em vigília de insônia
velo teu corpo
e o admiro
como ao copo translúcido
ao lado de tua cabeça.


II
Teu corpo deitado na cama
tem a mesma inquietude do copo,
a inquietude da água desse copo
pronta a derramar-se
como teus cabelos sobre o lençol;
a mesma inquietude
pela sede que evoca.


III
Um copo translúcido e calmo
que perturba o cristalino.
Um corpo de água
todo espraiado
entre os lençóis de água
de que é feito o branco da cama
a derramar em dobras dentro
dos limites do leito.




IV
Um corpo cheio até a boca
entre lençóis de água.


V
A cama
toda se alagando
entra por meus olhos cheios
do líquido que derramam
teus cabelos.








O VINHO DE LETHES




Pousa uma vez mais
em tuas mãos


a taça


é tempo, é tempo
de beber
o vinho do esquecimento


recolhe as rosas
murchas no vaso
e as pétalas
que amarelam sobre a toalha de renda
solta os cavalos
no carrossel da memória.


é tempo, é tempo
de lançar ao mar
as cinzas
de estancar com lenço
da seda mais alva
as primeiras gotas da tempestade.












NAVEGAÇÃO


Bombordo
aroma
de rosas
azuis


Estibordo
o corpo
suspira
espiral


Acima
o lume
do teu olho
em mar escuro
o leme
do teu olho


astro-
lábios.
















Trecho de uma resposta a uma enquete da Revista Eletrônica Zunái (É possível conciliar experimentação formal e lirismo na criação poética?)

...Mas felizmente tivemos também um Manuel Bandeira, em cuja poesia o lirismo ressurge no que ele tem de primordial, de grego, mesmo: a associação entre o canto e o mundo dos afetos. Não nos esqueçamos que a origem do lirismo é grega, e tem a ver com o fato de Orfeu ter feito uma lira com suas tripas, para resgatar sua amada Eurídice do inferno. Estamos marcados por esse gesto, ainda que seja um mito. É verdade, porém, que, entre os jovens poetas, os temas tipicamente líricos não estejam muito na ordem do dia. Aos jovens poetas, interessa mais a anotação das sensações, mais que dos sentimentos. E mesmo os sentimentos, no mundo pós-moderno, se modificaram, sobretudo com a diversificação sexual. De minha parte, acredito que lidar com temas líricos como o amor (e suas adjacências), não significa abrir mão da experimentação. Meu mentor, nesse caso, é o poeta que, a meu ver, melhor soube conciliar os temas clássicos do lirismo com a experimentação estética mais ousada da poesia moderna: E.E.Cummings. Gosto de escrever sobre temas que deveriam ser expressos em elegias, odes ou epitalâmios, mas submentendo-os a uma nova configuração verbal e gráfica. Em suma, acredito que os grandes temas líricos, na mesmo medida em que ganham novas formas de expressão, vão também influenciando a formação de novas experiências e experimentações. Pois o amor, que é a base e o fundamento do gesto órfico da poesia, não é uma experimentação – e o que é mais – estética?




Adalberto Müller nasceu em Ponta Porã (MT/MS) em 1966. Publicou Ex Officio (Paris, 1995) e Enquanto velo teu sono (7 Letras, 2003), além de traduções de Francis Ponge (O partido das coisas – Iluminuras – A mimosa – Ed. UnB), Paul Celan (revistas Zunái, Oroboro)e de E.E.cummings (O Tigre de Veludo - Editora UnB, coleção Poetas do Mundo). Organizou o livro de ensaios de Benedito Nunes João Cabral: A máquina do poema (Ed. da UnB, 2007). Organizou e coordenou, com Graça Ramos, o Festival de Poesia de Goyaz, em 2006. É professor de literatura e cinema na UnB, e dirigiu (com Ricardo Carvalho) o curta-metragem (35mm) Wenceslau e a árvore do gramofone, baseado em textos de Manoel de Barros (em finalização).

blog: www.cordeldigital.blogspot.com








2 comments:

Anonymous said...

Poética sublime. conversa final derradeira.
que bom encontrar, mais e mais, vivências que influenciam o caminho tortuoso de quem escreve.
abraços
http://dionisios.zip.net

ricardo said...

ke beleza, karaí! e agradecimentos tantos deste tonto que a vós digita! esse enquanto velo é uma encruzilhada linda entre o cabral de melo, o magritte e um adalberto.