Wednesday, October 25, 2006

JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ


mencionado porÉrico Nogueira

menciona a
Priscila Figueiredo





poemas


Terra
O momento certo
não existe
pois é o tentar fazer-se homem
quem dita meu lento ritmo.

afazeres
tentações
diluições, tentativas
álcool, fumo, jornais
muito pouco importa o vício
a idade certa que avança
onde, longe, liga e gira
o chão das idéias esparsas
e afiados cacos precisos

isso quando pensar é possível
fumar longamente o salário
na tarde que antecede
cede a morte
em estado líquido

isso quando é aceitável
a busca seca de sentido
a boca seca ausentada
da palavra
suicídio.

(em Meus Seios, ed. Nankin, São Paulo)





Meus seios

Mãos sobre o peito,
procuro ar nos pulmões,
meu filho escolhe andar
com suas próprias pernas.

Faz frio, faz calor, escuto
o cantar de pássaros sujos
entre ônibus e motocicletas,
meu filho escapa entre luzires.

Acordo sentado na cadeira
vejo sinais de sangue e espuma
sobre seus ombros, o filho
que herdei de seu Pai morto,

espera algumas palavras antes
de ir dormir. Esqueço de lembrar
meu nome, mãos em meu peito
quem extirpou-me os seios?

A mulher que me tornei responde
atenta, com gestos curtos por trás
do bigode, recolhe seus véus entre
as pernas, oculta anatomia.

A mulher que me tornei derrama
soluços sobre o chão de pedra,
seus pés descalços ... Ofereço
o leite de meus seios aleijados

ao vazio de meu corpo estranho.
Marcas do filho que nunca pari
doem fundo, longamente,
exasperando uma a uma
cada fibra.


(em Meus Seios, ed. Nankin, São Paulo)








Flower Children




Pessoas que não fôra,
o semblante espelhado
nas letras; ásperas letras
de sangue e papel, tinta e lágrima.


Eu teria sido aquele que li,
eu teria vida assim, vagido,
pequenas flores cultivadas
em cada pedacinho de chão.


Quem sabe? Eu gostara que
plantássemos milho e cevada;
eu esperava pelo homem
na varanda pintada de azul.


Sangue e papel, tinta e lágrima,
veja as fotos e as pegadas
e eu, por onde andarei?
Que vagares? Que derivas?


Eu também te amaria, também
as pessoas mortas que eu não fui;
amor, vem comigo, esperar a memória
fazer renascer a manhã espessa,


aqui a memória da palavra
hoje,
nossa vida
nossa casa.


(em Meus Seios, ed. Nankin, São Paulo)














bio/biblio


José Rodrigo Rodriguez é poeta, professor e pesquisador. Estuda Direito e Filosofia.
Publicou Meus Seios pela Editora Nankin de São Paulo mais livros de circunstância.




poética


É comum as palavras se cansarem de mim. Então, eu fico muito aflito, sem saber o que fazer. Comprar-lhes um vestido novo? Levá-las para passear? Nada disso funciona. Não adianta nada. A melhor coisa a fazer é sentar e ouvir o que elas têm a dizer.


Para além de seus afazeres diários, de nomear as coisas para que possamos comprá-las, pegá-las e comê-las, há muito que figurar.


A poesia se faz assim, quando permitimos que as palavras não cumpram o seu dever.

























3 comments:

dionisios ditirambicos said...

Caro José Rodrigo Rodriguez, percebo uma ode chtoniana, elegia de um homem que preza o vitalismo do dionisiaco e de encontros serenojoviais.
evoé a voce
Le Grand Rodriguez
tal como aparece em Kafka, um corpo sem orgaos, um vitalidade que nao se sabe definir,
talvez
isto e pronto.

Anonymous said...

José Rodrigo parece viver a poesia como uma espécie de refúgio - de último refúgio. Como uma espécie de reconciliação, efêmera e precária, com aspectos de nós e do mundo que são em regra invisíveis: mas não aqui. A dor, a graça e fino humor dos seus versos são o que mais me impressiona.

Érico Nogueira

Rita de Cássia Bernardo said...

Sucesso !
abs