Thursday, October 05, 2006

JORGE LUCIO DE CAMPOS


mencionado por
Rodrigo de Souza Leão


menciona a
Claudia Roquette-Pinto
Lu MenezesVivien Kogut
Claudio Daniel
Fabricio Carpinejar
Rodrigo de Souza Leão




poemas




O PRAZER DO TEXTO

a Roland Barthes

Ainda que não haja céu
e a desolação da terra
seja um fato prumo
espírito

tudo dorme em retirada −
colar de ceifa e flama

Então resolvo, na verdade, a
mim não cabe o mundo
indiscernível toque
de matema

apenas sei de frases verdes −
nela
o jarro d’água em
que mergulho e

oferto ao vão do mundo
: o que fala e aquieta o
mais-ser do que não-é?

: o que na luz pensada
da manhã sem pernas

o lábio raspa
a frase, não na

hora incerta e metafísica
em que o prazer nos range

não importa quão
distinto-escuro

(Do inédito: A hipótese do cinza)




A ORIGEM DO SENTIDO

a Emmanuel Levinas

1

Eu queria ter
lágrimas

minando em
meus olhos

como sonhos −

coisas leves
que a razão já

leva embora


2

É quando
sinto o solo −

a substância
do solo −

e me aproximo
da morte que

me faz sorrir


3

Não me importa
tanto o que aspiro

se respiro sem
risadas, devaneios −

passo de uma
idéia à outra

sinto o humor
infindo do que é


4

Mas a morte
(que não me

deixa quieto)
sempre me

pergunta:
“quando?”

(Do inédito: Devoração)



CÃO

a Francis Bacon

Um cão se meteu
em minha alma
pra não mais sair ─
não quero que saia
mas que desvele
um vagalhão de
estrelas

Não penso em vê-lo
nem ouso ouvi-lo ─
que parques floridos
o façam por mim
em meio a grandes
revoadas

Nem a polpa do
mundo, nem o luto
impossível de seu
pelo negro, seus
melismas, fatias
de luz

nem o estar-aqui
do mundo pode
explicar um cão
assim

(Do inédito: A chegada do outro)




bio/biblio

JORGE LUCIO DE CAMPOS nasceu no Rio de Janeiro em 15 de setembro de 1958. Publicou as coletâneas: Arcangelo (1991), Speculum (1993), Belveder (1994), A dor da linguagem (1996) e À maneira negra (1997). É ensaísta e professor da UERJ (Filosofia e Teoria da Arte Contemporânea), desde 1986.



poética
Sobre a poesia gostaria de reafirmar que, em minha opinião, fazê-la é dizer muito – o máximo que a palavra permite no momento tão tênue e alongado do versejamento, do transe estético, do esgarçamento sensório-conceitual – sobre o mundo que nos cerca, com a condição que interferir nessa relação com a treva, de atirar um pouco de luz no processo através do apuro da forma, da geometrização do caos, ou seja, é avançar sobre o mundo, procurar desabismá-lo, desdesertificá-lo e dizer, com isso, todo o possível sobre ele, de modo a reaproximá-lo, torná-lo, novamente, íntimo de si mesmo.

2 comments:

Anonymous said...

Jorge Lúcio de Campos é um poeta muito interessante, merece ser lido com atenção.

Claudio Daniel

dionisios ditirambicos said...

Descomer, espanto pacífico pela luz que me paliava
A Jorge Lucio de Campos que seu vaivém, triagem de um poeta – filósofo.
Me fez enxergar venustamente, o estourar.
Pocar no interior de um matuto
Um sonho de porta-olhar-lira.