Friday, October 13, 2006

MAURÍCIO CHAMARELLI GUTIERREZ



mencionado porLuis Maffei
Alberto Pucheu

Maurício Matos




menciona aJoão Fagerlande
Márcio-André
Vítor Paes
Maurício Matos
Ronaldo Ferrito



poemas
Díptico:



1/9 – CartaPara Ronaldo Ferrito
Meu cobertor – quase um véu de luto.
É manhã
E daqui da praia posso ver as enormes velas brancas hasteadas no horizonte
Como se o mundo fosse partir.


O céu jamais saúda o nosso setembro com olhos azuis
É sempre esse sorriso pálido que acena
A estampa desses dentes brancos pelo lado de dentro:
Fomos engolidos e não resta lá muito mais a ser visto.


E me levanto.
Vindo à tona de debaixo das cobertas como quem desenterra orgasmos
Rompendo a veia dessa boca
Não sei se em nascimento ou anunciação.


Eu sempre te saúdo com palavras rubras
Como as de antes
Como as manhãs. Como as paixões colhidas em silêncio.


Ah! meu caro! O quanto fomos irmãos! O quanto ainda o somos!
O quanto me dizias que cada passo celebra o último
e o próximo.


Quero ainda ver! Quero ainda ver!


Não esgotei minha vida num berro de saudade
Ou num soluço!


A exata e justa medida de qualquer coisa,
Quis não deixar pra trás nenhum futuro de pretérito
e fui.


– Mando saudades de cá da terra e abraços


O céu iça suas velas
No horizonte, o carrancudo semblante de um relâmpago,
E eu clamo por ventos.


Primavera nos dentes


Mas outubro,
Outubro se anuncia entre esses dentes.
Não sei se de dentro
– como vômito
Ou se de fora
– como soco
Mas outubro, outubro se anuncia,
E aqui, ao lado o fantasma de um desejo,
Jaz a acidez raquítica do meu silêncio.











Por exemplo o beco cinza

Quando passo o beco cinza,
Quando volto os olhos pelos passos dados dentro do beco cinza,
Quando penso que volto os olhos pra reconstituir os passos que transpuseram o beco cinza,

As ruas mudam de lugar,
e os paralelepípedos

Atrás de mim

à minha frente

E sou um desaparecido




Giant Steps: Invocação

Voz do cárcere de Pisa em Andante:

Um homem cercado de espelhos
Ruge.
E toda nobreza é velada em seu canto.

Envolto em espelhos,
Grita toda beleza que exala

– Estrangeira mão que impede o passo
Os dedos rijos, a palma encara-me

E ainda admirar todo poder de mergulho,
Todo salto em terra estranha

Um homem refletido em espelhos
Ricocheteia sujeito a si.

– Não me impedirás de te dizer palavras rubras,
:
Quando vier a vida,
A mesa disposta, a cara suja: cada coisa fora de lugar.

De todos os lados correntezas me querem levar,
Espelhos querem sujeitar-me,
Atribuir-me um rosto.

– Não me impedirás de te dizer palavras rubras
E admirar toda capacidade de mergulho,
De perdição em terra estrangeira.

§ Ad libitumO pensamento,
Máquina de engrenagens entregues ao tempo,
Sujeitas a toda ferrugem do poder,
Range.
Alheia a todo controle,
A vida fala em mim a passos de gigante,
Salta sempre adiante a arrastar a razão
Que divide compassos, sôfrega,
Harmoniza intervalos
E ritmos
Incalculáveis.
§
O amor na retaguarda, já lutei em campos verdes.
Hoje levo o peito aberto
E não mais me desespero
A fronte, limpa de todo ódio, saúda todo imigo.
Todos me dão nomes, puxam-me as orelhas:
Me querem fazer lembrar

§ Moderato
Consta que caminhava em espirais o velho a que um dia chamei de pai. – De modo que sigo sempre em todas as direções – dizia-me ele.
Erradicado em todo esquecimento,
Um fruto.
É a lição dos astros: elipses sobre elipses sobre elipses. Curvas entorno de curvas.
Brota. Esquece-se.
De modo que sempre se tem de voltar para aonde já se foi para se poder ir adiante: em todas as direções como a copa das árvores.
§

§ Allegro vivace
Parar incógnito num banco de praça
Ante o silêncio do mundo, ocupar-me só do que sou
E sorrir.

O verso afunda ao toque
Mas se presta ao salto

Deixar-me levar pelo ensejo e descobrir
O tempo enquanto o instante faz.

O que hoje levas no peito amanhã levarás nas costas senão entenderes que tudo se vai que nada de importante com o tempo se perdeu ontem que o mesmo tempo não nos esteja oferecendo hoje
:
o afeto que tens é o emblema da força no afeto que terás
Rall------ .





bio/biblio:
Maurício Chamarelli Gutierrez nasceu em 1984 no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Estuda Letras na UFRJ e toca saxofone nas horas vagas. Os poemas acima pertencem ao livro "Corpo Tênue", lançado em maio de 2006 pela editora carioca Oficina Raquel.






poética:O que é poesia: não sei. Mas está de pé. E move-se mais rápido do que deveria.

1 comment:

afonso h r alves said...

Jovem poeta, admiro sua poesia.
evoé e dance sempre no ritmo que quiser na palavra pois voce tem poder uníssono.