Saturday, October 14, 2006

RODRIGO GARCIA LOPES

foto: Norma Lessa Ryan


mencionado porClaudio Daniel
Mariana Ianelli
Ademir Assunção

menciona a
São tantos de qualidade hoje no Brasil. Citarei apenas 5 (cinco) que ainda não foram citados por ninguém (creio).
Jairo Batista Pereira
Maurício Arruda Mendonça
Karen Debértolis
Dennis Radünz
Monica Berger





poemas
ZEITGEIST



Nocauteando celebridades disfarçadas de pingüins
Monitorando a muvuca das transações e trapaças alpinistas
Serpenteando entre escadarias cravejadas de citações
Chutando o balde do crepúsculo com o bebê da aurora dentro
Chegando firme na dividida com a mentira, pisando o calo da calúnia
Colecionando estoques de paciência e delatores pederastas
Beliscando morenas de fiberglass e pixels de altíssima definição
Pegando marqueteiros pela orelha, levando o bispo milionário pelo pescoço
Mostrando seu catálogo de golpes de jiu-jítsu para web designers
Apavorando editores de moda com crucifixos de merda
Partindo pra ignorância pra cima das floriculturas
Esfaqueando a manhã e as boas intenções com sua adaga afiada
Pulverizando jogadores de genoma e modelos chipadas
Dando geral nos arquivos adulterados dos tribunais de justiça
Assaltando pipoqueiros metafísicos e banqueiros artistas de fim de semana
Distribuindo pirulitos de ácido para críticos literários
Arrebentando a boca da razão com denúncias inconseqüentes
Estrangulando docemente a tarde carregada de câmeras de vídeo & trance music
Pregando a irresponsabilidade fiscal, e anthrax para todos,
Rifando o shopping lotado de idéias fixas com um grito de jihad
O homem-bomba entra no poema.


(De Nômada, Lamparina, 2004)




EM ABERTO MISTÉRIO
"A realidade trabalha em aberto mistério"
Macedonio Fernández


O Olho
atrás
do que o consome:
Essas horas sem nome
E a rapidez das coisas
Muito além da linguagem
E da escuridão.

Somos apenas
Uma consciência de si
Que o olho empresta ao velho ver
Ao velho mundo
Uma desculpa para ser.


As coisas que ele vê
Estão mais distantes
do que possam parecer.
Silêncio: linguagem fala.
A paisagem estala
De realidade.


Pensagem:
No tempo de um relâmpago,
A mente bebe um poente.
Essa tem sido a velha lei.


Desconfiar dos espelhos
De espetáculos
E do que os olhos não vêem.
Ser é perceber, dizia Berkeley.
Nem sempre foi assim:


Veja, a um palmo
Do paraíso
O olho, fechado, preciso,
Avista o Olhar.


Fosfenos relincham
Desenhos insólitos
Sua sede de mais:
assaltar o real
de dois olhos abertos.


"O vento respira
meus pensamentos sem corpo
(A alma fica sem fôlego)
(Sua meu silêncio)".


Vê a si, olho, ilha de
puro movimento agora,
limitado entre a língua
e as horas.


Decalca o painel do poente
Com sua fome de impossível
Refúgio, momentum,
Ideogramas de luz.


No olho do furacão
Onde ele
É mais tranquilo.


Duplo de si,
condenado a ver,
mas separado.
Quem observa?
A pupila,
Sua serva?


Se o que ele vê
É o real
Então o que é isto
Que se desloca
Com a velocidade de um piscar?


Não sou isso que ele percebe
Pois assim a escuridão me mataria.


Entre a música e o mundo
No silêncio de sua curvatura
Entre o som e esta chuva
Muitas respostas sem perguntas.


O olho, sem passado,
fluxo elétrico
Atrás
Do que parece ser
Ancora suas sombras
Arde no instante de ar


Mas, inalcançável,
Tudo isso avança,
Foge de você, pele,
Lento papiro,


Vácuo de voz,
Um nada que vocifera
Entre o ser que se dissolve
– fresta no silêncio –
E o olhar que lucifera.
(Inédito, 2006)












Rito
Alertas, trapaças, cobranças, compromissos:
Quantas ilhas sem edição, vidas sem viço,
A morte visita sem aviso?
E, afinal, pra que mesmo tudo isso?


O que deu nesse mundo, caduco,
O que ficou do tempo em que viver
Era mais que só mudar de assunto
Era rito, um estado de espírito?


Ou quando olhar era uma reza,
Pensar que revelava a leveza,
Música vindo de dentro
(Precisa de centro?)


Uma revolução do sentir nos fez ateus:
Quisemos então ver a face de Deus.


E você a meu lado, lembra
De quando bastava uma fagulha
Pra explodir uma Bastilha?












bio/biblio
RODRIGO GARCIA LOPES (Londrina, PR, 2/10/1965).
Blog: http://www.estudiorealidade.blogspot.com
Poesia
Solarium (Iluminuras, 1994)
visibilia (SetteLetras, 1997)
Polivox (Azougue, 2001)
Poemas selecionados 1984-2001 (Atrito, 2001)
Nômada (Lamparina, 2004)
Tradução
Sylvia Plath. Sylvia Plath: poemas (Iluminuras, 1990). Com Maurício Arruda Mendonça.
Arthur Rimbaud. Iluminuras: gravuras coloridas (Iluminuras, 1994). Com Maurício Arruda Mendonça.
Laura Riding. Mindscapes: poemas (Iluminuras, 2004)
Anônimo (do anglo-saxão). The seafarer / O navegante. (Lamparina, 2004) no prelo
Walt Whitman. Leaves of grass / Folhas de relva. (Iluminuras, 2005)
Entrevistas
Vozes e Visões: panorama da arte e cultura norte-americanas Hoje (Iluminuras, 1997).
Com Allen Ginsberg, John Cage, John Ashbery, Amiri Baraka, William Burroughs, Chick Corea, Nam June Paik, Marjorie Perloff, Meredith Monk, Lawrence Ferlinghetti, Charles Bernstein, entre outros
Música (CD)
Polivox (2001)
Teatro
Iluminuras. Gravuras coloridas. Com Maurício Arruda Mendonça, Sidney Giovenazzi e Adriano Garib (1994)
EM ANTOLOGIAS
Outras Praias – 13 poetas brasileiros emergentes (Iluminuras, 1998)
Esses Poetas, uma antologia dos anos 90 (Editora Aeroplano, 1998)
Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (Objetiva, 2001)
Literatura Brasileira Hoje (Publifolha, 2004)
Antologia Brasileira da Poesia do Século 21, ( Publifolha, 2006)
Cities of Chance: an Anthology of New Poetry from the United States and Brazil (Rattapallax, 2003).










poética
Poesia: uma viagem que se faz parado.

1 comment:

Heloisa said...

Pesquisando para o grupo de estudos de poesia contemporanea da faculdade o tema: poetas que usam a Net como espaço editorial e de divulgação
Acabei caindo no blog Estudio Realidade (que acabou me levando a essa antologia única)e fiquei estasiada pelo poeta completo que ele é.
Sua poética é singular.
Muito Bom