Wednesday, March 04, 2009

RICARDO PINTO DE SOUZA










Menciona:

Virgínia Boechat
Roberto Bozzeti
Érica Zíngano
Roberta Ferraz
Marcos Pasche



POEMAS(Do livro Culturas, Oficina Raquel, 2007)


0

uma rosa, sem nome, não seria
rosa sem nome, ou helicóptero
ou ornitorrinco, ou laranja
sem nome não seriam
o peso brando sobre a língua
mas antes, entre
a brincadeira de deus
e a prisão das palavras
aquilo que escapa para antes, no zero
não uma laranja
mas a maçã de Newton
(que não é a gravidade nem Eva)
nem uma rosa
mas a flor de Drummond
(que não é Julieta, nem deus)
assim se salvam
sem sobra ou falta

sua única promessa



A REVELAÇÃO ME ATACA SEM PRESTÍGIO

um anjo, um diabo e um santo
sua conversa me entedia, nenhum
traz solução alguma, reclamam...

continuo andando, mas me seguem
moscas luminosas de três metros
infectando minha sombra de prédicas
e livros vazios, peidos e fel

decido dar um basta, grito com eles
gritam de volta, citam o apocalipse
a danação, a redenção, a ética
enfim, têm cara-de-pau, sim, ficam

hoje dormimos os quatro, a cama
que é grande para mim pareceu uma lata
o anjo ronca, o diabo tem insônia
o santo fala sacanagem e chora

às vezes eu penso em rifá-los
um destes puteiros hardcore
onde seriam comidos até pela uretra
mas, porra, a gente se afeiçoa a fantasmas



SOBRE FRANZ

o que não pode, na pepita dos ossos roídos
ser roído: o que permanece, que alimenta
o ruído do ruído, o que constrói o homem
e seus anjos e demônios e fantasmas
seus esgotos
seus teares





BIO/BIBLIOGRAFIA


Ricardo Pinto de Souza nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. É editor da Oficina Raquel (
http://www.oficinaraquel.com/ ), e publicou Culturas (2007, poemas) e Bestiário (2008, pequenas narrativas) pela editora. Também é doutorando em Literatura Comparada pela UFRJ.





POÉTICA


Eu penso muito em termos de fantasmas e demônios, como essas forças que precisam ser amainadas e controladas para que possam te trazer algum prêmio, então, escrever é sempre uma espécie de servidão de passagem. Você faz certas ofertas e sacrifícios a estes fantasmas, Blake, ou Drummond, ou Dante, ou quem seja, ou o que seja, e espera que em troca possa tocar, mesmo que de leve, o mesmo lugar em que eles mergulharam. Obviamente, estes são gênios malignos, com certa frequência você acaba no lugar
errado.

Tuesday, February 03, 2009

GREGORIO DUVIVIER







Mencionado por:
Alice Sant'anna
Menciona:

Alice Sant’Anna
Ismar Tirelli NetoLuiz Coelho
Lucas Viriato
Carlos Andreas
Gabriel Tupinambá



POEMAS



Receita para um dálmata
(ou Soneto branco com bolinhas pretas)

Pegue um papel, ou uma parede, ou algo
que seja quase branco e bem vazio.
Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.

Em cada pata ponha muitas unhas
e em sua boca muitos dentes. (Caso
queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,

ponha um fiapo nervoso: será seu
rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá
fora e espere chover nanquim. Agora

dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,
é dálmata. Se comer (e mugir),
é uma vaca que tens. Tente outra vez.

(A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, 7Letras, 2008)



o meio de todas as coisas

entre o fim do começo e o começo
do fim toda coisa tem uma massa
inerte feito ponte pela qual
passamos distraídos – ou não:
os astecas sentiam chegar o exato
momento do meio da vida – o meio
do meio da vida, o momento em que
o que já vivemos é exatamente
igual ao que ainda não vivemos
– e nesse momento preciso o mais
comum dos astecas sentia uma súbita
e inexplicável vontade de tomar um trem
mas como ainda não o tinham inventado
ele acabava por entristecer-se
(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)

(A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, 7Letras, 2008)



elephant gun
para Isabel Wilker

Te encontro na Moldânia ou na Manóvia
às sete da noite de 2016 na praça
principal de uma cidade excusa
em que as ciganas foram proibidas
de tomar café e os negros pintam a palma
da mão de amarelo e as pousam sobre
a fronte cansada da longa viagem de trem.
(chegaremos a pé cada um de um lado
e você se sentará sobre um banco envolta
em serpentinas e um manto xadrez
e sobre o teu colo eu tombarei como um boi.)

(A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, 7Letras, 2008)




BIO/BIBLIOGRAFIA:


Gregorio Duvivier é ator, poeta, nasceu no dia 11 de Abril de 1986 e mora na Gávea. É formado em Letras pela PUC-Rio, embora nunca tenha ido buscar o diploma. Seu primeiro livro, “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora” foi publicado pela 7Letras. Era para ser um livro póstumo, mas para isso era necessário que ele morresse. Como Gregório tem pavor de gilette e de grandes alturas, seu próximo livro só será póstumo se deus quiser e contribuir com um acidente de carro ou uma pneumonia.




POÉTICA


Sobre construir janelas
(para Paulo Henriques Britto)

Erguer antes de tudo uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada

são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,

nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.

Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.

Monday, January 26, 2009

LILIAN AQUINO












Mencionada por:




Menciona:

Ana Rüsche
Renan Nuernberger
Carla Kinzo
Eduardo Lacerda
Fábio Aristimunho vargas
Carol Marossi






POEMAS




Revelar


Não se percebe mais
o ruído do filme
rodando na câmera.
A imagem se fixa em silêncio
e quando você quis me fotografar
tinha luz refletida nos olhos
bem na retina.

Eu sabia (e você quis) que sua lente
focava planos ao redor de mim
até os insetos, que te levavam a voar
e te ensinavam a se imiscuir
nas peles, nos pêlos,
ou mesmo os beija-flores
ligeiros.

Quando você quis me fotografar
revelar minha espera, meu foco,
seu foco se convergia ao fundo
(sua figura)
e eu, fundo.

Não se ouviu
e o filme rodou
quando você quis me fotografar.






Água-viva



O homem encharcado
atravessa a rua e entra
rápido pelo portão de casa:
precisa dar um telefonema.

Chove muito
como chovia há quase um ano,
mas era maio, ele disse.
Se pudesse, falaria que
naquele verão
tarde de fevereiro
já não molhava mais.
Mas disse
hoje não use guarda-chuva
e venha para casa
porque te espero.

Chove muito
e sorri líquido o homem,
água-viva.





Ritual

para Fabiana Melchiori



No mesmo dia
em que o filho deixou
a casa
(se afastando de costas
para olhá-la nos olhos)
ela resolveu plantar
um ipê

na sala

Num ato solene
quebrou o chão
e
revirou o solo
e
chafurdou-se toda
contente

E do desfeito
pelo rebento
ficou aquela cicatriz
na barriga
, a estranheza do ser
livre
e o olhar aquela árvore
ainda sem flores
e se perguntar:

roxo ou amarelo?





BIO/BIBLIOGRAFIA



Nasci em São Paulo, em 1979, e aqui vivo desde então, mas sempre com um pé em Minas. Já publiquei poemas nas revistas Inimigo Rumor, Mininas, Metamorfose, Zunái, e no jornal de poesia O Casulo. Faço parte do coletivo de poetas Vacamarela, que publicou sua Antologia em 2007.




POÉTICA



Poesia, assim como toda arte, é revelação. Escrever é para mim, então, a busca de desvelar o real no dia-a-dia, de obter um foco nada óbvio, intensificar sentidos. No meu cotidiano, isso vem sempre do espanto tanto com o banal quanto com o extraordinário.

“a poesia é um tipo de loucura qualquer. É uma linguagem que te pira um pouco, que meio te tira do eixo.” (Ana Cristina Cesar)

Thursday, October 16, 2008

JUSSARA SALAZAR











Mencionada por:
Adolfo Montejo Navas
Eduardo Jorge

Menciona:

Cida Pedrosa
Diana Araujo Pereira
Guilherme Mansur
Moacir Amâncio
Lucas Carrasco
Marco Polo Guimarães
Aroldo Pereira
Luis Turiba
Fabio Andrade







POEMAS


O Livro das Tempestades
Fólios sonoros rasgados
ao vento girando os dias
assombrando a terra
(pianoforte) — árvore das mil estrelas qual livro aberto
e tudo e todas as páginas
ao vento também
dos poemas despedaçados
esfera marítima rumorejante
esfomeada
ondulando as roupas coloridas
de um varal aéreo
rodopiantes silfos
sufis, encantos ou Mary Poppins
om su umbrella bianca
— serei as duas almas de Hurricane
subterrâneo vício de Ulisses
no velo do abraço a tarde fria
espumando a boca
do cão com asas
do cão sem asas
guiando meu cego corpo
mar do olho pedregoso atirado à fuligem
sopro preso no sopro
na voragem
e de novo o corpo
em grifos
açoites
entrecortando cidades girando
aqui
meu pequeno vendaval
sobre
o tapete chinês




Água celesteou jogos da amarelinha

antes tarde
que nunca
entulho
antes música
e estilhaço
no ardor
aquático
deste ácido entre
a orla
sempre um cáustico
iça
funde o corpo
um tímpano
ao pólen
quem beira o lago
e o astro
rapta
o concêntrico eco
e antes refaz-se
do que nunca
hálito
enquanto ara
um palavreado
e apalpa
a teia
o átimo
ante
o acústico
caleidoscópio





Peixe Austral

humo y uma
filosofia de dedos acaricia o tigre
silhueta
onde o desenho
sobre a porta
aquece a lâmpada
um círio
entre imagens
uns pequenos encantos
na geometria cálida
desmedida fronteira de um verão
olhos cerrados
quase um espasmo
uma flutuação tênue e cadenciosa
enquanto mergulha
e o verde
são pequeninos pontos
ao longe um pedaço
da desgarrada hora
inútil
minuciosa
e a memória da chuva
às vezes feminina
maná que se oculta
para logo em seguida
emergir superfície
em cifras no anfíbio tear
redondilha
augúrio lampadário
spray
ou cenas do teatro nô
escutam se a si
miram mesmo seus sonhos
quase um mapa
nas delicadezas
e uma ave desavisada arrisca um pouso
perfuma de continuidade
o beiral ovalado
e as lises escamas nos azuis
de uma fotografia impensável
sílabas
na fábula
escrita antes luminosidade
ou fosse a casca
áspera
de um peixe.





BIO/BIBLIOGRAFIA



Jussara Salazar é poeta. Nasceu no agreste de Pernambuco. Publicou os livros: Inscritos da casa de Alice (1999) Baobá, poemas de Leticia Volpi, (2002), Natália (2004) e Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008). Tem sua poesia publicada em várias revistas: Tsé-Tsé (Argentina), Chain (EUA), Rattapallax (EUA), Suplemento literário de Minas (Brasil), Galerna (EUA/Espanha), Mandorla (México) Babel (Brasil), Sibila (Brasil), Revista Continente, Caderno Mais! (Folha de São Paulo), Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Mar com Soroche (Chile), entre outros. Faz parte das antologias Na virada do século (2002), Passagens- Poesia Contemporânea no Paraná (2002), Invenção Recife (2004) Poetry Wales, (2004, País de Gales), Relicário Latino, Antologia de poesia latina, (2004), Revista Continente, (Imprensa oficial de Pernambuco), Literatura Brasileira Hoje, (Publifolha 2004), Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século XXI (2006) e Geometry of Hope (2008, New York) entre outros. Atualmente edita a revista eletrônica de arte e literatura Lagioconda7:
http://www.lagioconda.art.br/ e a coleção Livros da Casa 7, Poesia das Américas.







POÉTICA



Na cidade mineira de Montes Claros conheci jovem morador de rua, catador de papel, que acha livros no lixo e os lê como preciosidades. Escreve poesias e me contou: “procurei e acabei encontrando o que eu acho que é o significado da poesia – poesia é o belo...” –, definiu.
Eu perguntei se ele andou lendo Kant e disse que sim, lá a maneira dele.
Então poesia passa a ser o belo, o belo do menino de Montes Claros. Nunca antes alguém havia me convencido de algo tão simples.

Tuesday, September 30, 2008

SUZANA VARGAS







Mencionada por:Nora Fortunato
Menciona:Armando Freitas Filho
Leonardo Fróes
Astrid Cabral
Eunice Arruda






POEMAS




Quase decálogo sobre o amor

O amor é vermelho e tem medo de perder
e se preocupa com cartas não respondidas
com o silêncio do telefone
e a falta da palavra meuamor

O amor é feito de ausências e dependências
de encontros desmarcados e acertos
de memória e corpo

Se está longe
o amor deseja estar perto
Se está perto,
não sabe o que fazer com as mãos
nem com as palavras

Em geral,
o amor perde tempo na repetição de tudo:
do verbo
ao toque

E porque sabe que é feito de finais
o amor nunca começa
Ou se perde no momento em que inicia

O amor vicia

(do livro O amor é vermelho . Ed. Garamond/2005)








Ortopédica

Nada como não ter pés
para valorizar sapatos.

Já sei que não é novo:
o provérbio é mais ou menos chinês
e mais ou menos
meu


Descobri caminhando

(do livro Caderno de Outono. Ed Relume Dumará/1998)








Insônia

São universais:
relógios de parede
galos que cantam
o escuro do quarto

...e o anjo que nos fez caretas a noite toda

(do livro Sombras Chinesas . Massao Ohno /1990)





BIO/BIBLIOGRAFIA




Suzana Vargas é gaúcha e reside no Rio de Janeiro há 30 anos. Escreve poesia, livros infantis e alguns ensaios sobre leitura. Criou e coordena a Estação das Letras. Entre seus livros de poemas estão Caderno de outono e outros poemas (Ed. Relume Dumará) e O amor é vermelho (Ed. Garamond)





DEPOIMENTO



Ler e escrever poesia é a minha forma de estar no mundo de um modo natural. De aguentar a felicidade ou o que chamamos de ou seu contrário insuportável. É meu modo de ser livre e determina todas as outras ações, as mais objetivas, inclusive.