Monday, January 26, 2009

LILIAN AQUINO












Mencionada por:




Menciona:

Ana Rüsche
Renan Nuernberger
Carla Kinzo
Eduardo Lacerda
Fábio Aristimunho vargas
Carol Marossi






POEMAS




Revelar


Não se percebe mais
o ruído do filme
rodando na câmera.
A imagem se fixa em silêncio
e quando você quis me fotografar
tinha luz refletida nos olhos
bem na retina.

Eu sabia (e você quis) que sua lente
focava planos ao redor de mim
até os insetos, que te levavam a voar
e te ensinavam a se imiscuir
nas peles, nos pêlos,
ou mesmo os beija-flores
ligeiros.

Quando você quis me fotografar
revelar minha espera, meu foco,
seu foco se convergia ao fundo
(sua figura)
e eu, fundo.

Não se ouviu
e o filme rodou
quando você quis me fotografar.






Água-viva



O homem encharcado
atravessa a rua e entra
rápido pelo portão de casa:
precisa dar um telefonema.

Chove muito
como chovia há quase um ano,
mas era maio, ele disse.
Se pudesse, falaria que
naquele verão
tarde de fevereiro
já não molhava mais.
Mas disse
hoje não use guarda-chuva
e venha para casa
porque te espero.

Chove muito
e sorri líquido o homem,
água-viva.





Ritual

para Fabiana Melchiori



No mesmo dia
em que o filho deixou
a casa
(se afastando de costas
para olhá-la nos olhos)
ela resolveu plantar
um ipê

na sala

Num ato solene
quebrou o chão
e
revirou o solo
e
chafurdou-se toda
contente

E do desfeito
pelo rebento
ficou aquela cicatriz
na barriga
, a estranheza do ser
livre
e o olhar aquela árvore
ainda sem flores
e se perguntar:

roxo ou amarelo?





BIO/BIBLIOGRAFIA



Nasci em São Paulo, em 1979, e aqui vivo desde então, mas sempre com um pé em Minas. Já publiquei poemas nas revistas Inimigo Rumor, Mininas, Metamorfose, Zunái, e no jornal de poesia O Casulo. Faço parte do coletivo de poetas Vacamarela, que publicou sua Antologia em 2007.




POÉTICA



Poesia, assim como toda arte, é revelação. Escrever é para mim, então, a busca de desvelar o real no dia-a-dia, de obter um foco nada óbvio, intensificar sentidos. No meu cotidiano, isso vem sempre do espanto tanto com o banal quanto com o extraordinário.

“a poesia é um tipo de loucura qualquer. É uma linguagem que te pira um pouco, que meio te tira do eixo.” (Ana Cristina Cesar)

Thursday, October 16, 2008

JUSSARA SALAZAR











Mencionada por:
Adolfo Montejo Navas
Eduardo Jorge

Menciona:

Cida Pedrosa
Diana Araujo Pereira
Guilherme Mansur
Moacir Amâncio
Lucas Carrasco
Marco Polo Guimarães
Aroldo Pereira
Luis Turiba
Fabio Andrade







POEMAS


O Livro das Tempestades
Fólios sonoros rasgados
ao vento girando os dias
assombrando a terra
(pianoforte) — árvore das mil estrelas qual livro aberto
e tudo e todas as páginas
ao vento também
dos poemas despedaçados
esfera marítima rumorejante
esfomeada
ondulando as roupas coloridas
de um varal aéreo
rodopiantes silfos
sufis, encantos ou Mary Poppins
om su umbrella bianca
— serei as duas almas de Hurricane
subterrâneo vício de Ulisses
no velo do abraço a tarde fria
espumando a boca
do cão com asas
do cão sem asas
guiando meu cego corpo
mar do olho pedregoso atirado à fuligem
sopro preso no sopro
na voragem
e de novo o corpo
em grifos
açoites
entrecortando cidades girando
aqui
meu pequeno vendaval
sobre
o tapete chinês




Água celesteou jogos da amarelinha

antes tarde
que nunca
entulho
antes música
e estilhaço
no ardor
aquático
deste ácido entre
a orla
sempre um cáustico
iça
funde o corpo
um tímpano
ao pólen
quem beira o lago
e o astro
rapta
o concêntrico eco
e antes refaz-se
do que nunca
hálito
enquanto ara
um palavreado
e apalpa
a teia
o átimo
ante
o acústico
caleidoscópio





Peixe Austral

humo y uma
filosofia de dedos acaricia o tigre
silhueta
onde o desenho
sobre a porta
aquece a lâmpada
um círio
entre imagens
uns pequenos encantos
na geometria cálida
desmedida fronteira de um verão
olhos cerrados
quase um espasmo
uma flutuação tênue e cadenciosa
enquanto mergulha
e o verde
são pequeninos pontos
ao longe um pedaço
da desgarrada hora
inútil
minuciosa
e a memória da chuva
às vezes feminina
maná que se oculta
para logo em seguida
emergir superfície
em cifras no anfíbio tear
redondilha
augúrio lampadário
spray
ou cenas do teatro nô
escutam se a si
miram mesmo seus sonhos
quase um mapa
nas delicadezas
e uma ave desavisada arrisca um pouso
perfuma de continuidade
o beiral ovalado
e as lises escamas nos azuis
de uma fotografia impensável
sílabas
na fábula
escrita antes luminosidade
ou fosse a casca
áspera
de um peixe.





BIO/BIBLIOGRAFIA



Jussara Salazar é poeta. Nasceu no agreste de Pernambuco. Publicou os livros: Inscritos da casa de Alice (1999) Baobá, poemas de Leticia Volpi, (2002), Natália (2004) e Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008). Tem sua poesia publicada em várias revistas: Tsé-Tsé (Argentina), Chain (EUA), Rattapallax (EUA), Suplemento literário de Minas (Brasil), Galerna (EUA/Espanha), Mandorla (México) Babel (Brasil), Sibila (Brasil), Revista Continente, Caderno Mais! (Folha de São Paulo), Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Mar com Soroche (Chile), entre outros. Faz parte das antologias Na virada do século (2002), Passagens- Poesia Contemporânea no Paraná (2002), Invenção Recife (2004) Poetry Wales, (2004, País de Gales), Relicário Latino, Antologia de poesia latina, (2004), Revista Continente, (Imprensa oficial de Pernambuco), Literatura Brasileira Hoje, (Publifolha 2004), Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século XXI (2006) e Geometry of Hope (2008, New York) entre outros. Atualmente edita a revista eletrônica de arte e literatura Lagioconda7:
http://www.lagioconda.art.br/ e a coleção Livros da Casa 7, Poesia das Américas.







POÉTICA



Na cidade mineira de Montes Claros conheci jovem morador de rua, catador de papel, que acha livros no lixo e os lê como preciosidades. Escreve poesias e me contou: “procurei e acabei encontrando o que eu acho que é o significado da poesia – poesia é o belo...” –, definiu.
Eu perguntei se ele andou lendo Kant e disse que sim, lá a maneira dele.
Então poesia passa a ser o belo, o belo do menino de Montes Claros. Nunca antes alguém havia me convencido de algo tão simples.

Tuesday, September 30, 2008

SUZANA VARGAS







Mencionada por:Nora Fortunato
Menciona:Armando Freitas Filho
Leonardo Fróes
Astrid Cabral
Eunice Arruda






POEMAS




Quase decálogo sobre o amor

O amor é vermelho e tem medo de perder
e se preocupa com cartas não respondidas
com o silêncio do telefone
e a falta da palavra meuamor

O amor é feito de ausências e dependências
de encontros desmarcados e acertos
de memória e corpo

Se está longe
o amor deseja estar perto
Se está perto,
não sabe o que fazer com as mãos
nem com as palavras

Em geral,
o amor perde tempo na repetição de tudo:
do verbo
ao toque

E porque sabe que é feito de finais
o amor nunca começa
Ou se perde no momento em que inicia

O amor vicia

(do livro O amor é vermelho . Ed. Garamond/2005)








Ortopédica

Nada como não ter pés
para valorizar sapatos.

Já sei que não é novo:
o provérbio é mais ou menos chinês
e mais ou menos
meu


Descobri caminhando

(do livro Caderno de Outono. Ed Relume Dumará/1998)








Insônia

São universais:
relógios de parede
galos que cantam
o escuro do quarto

...e o anjo que nos fez caretas a noite toda

(do livro Sombras Chinesas . Massao Ohno /1990)





BIO/BIBLIOGRAFIA




Suzana Vargas é gaúcha e reside no Rio de Janeiro há 30 anos. Escreve poesia, livros infantis e alguns ensaios sobre leitura. Criou e coordena a Estação das Letras. Entre seus livros de poemas estão Caderno de outono e outros poemas (Ed. Relume Dumará) e O amor é vermelho (Ed. Garamond)





DEPOIMENTO



Ler e escrever poesia é a minha forma de estar no mundo de um modo natural. De aguentar a felicidade ou o que chamamos de ou seu contrário insuportável. É meu modo de ser livre e determina todas as outras ações, as mais objetivas, inclusive.

Wednesday, August 27, 2008

ISMAR TIRELLI NETO










Mencionado por:
Alice Sant'anna

Menciona:

Alice Sant'Anna
Felipe Moreira
Heleine Fernandes
Diego Grando
Lucas Cureau






POEMAS



RUFUS

você – como tantos outros – acabou
não morrendo. Nem aqui nem em Bruxelas
parte alguma. A questão do apartamento
permanece pendente (estar-se em
plena obra). Sem diploma não tem como.
Você passou sem cura de repouso você não contraiu
uma afecção misteriosa você não botou
os pulmões pra fora de tanto tossir
num banheiro de hotel cheio de flores. Você
segue com esse estranho hábito de não lembrar
em nada a Barbara Stanwyck, ah, que se há de fazer?
Eu me mudaria para uma fonte em Amsterdã
algemado aos clarões de água
entra dia, sai dia injuriando
assistentes sociais – mas pense bem
pense bem. Não dou corda no despertador
e é o próprio tempo que nega fogo.

Manhã – ungüento geral – espalha
pelo Rio um brilho rouco – na frente do Edifício
Argentina me parece capital saber o nome das coisas –
precisamos de um plano. Um projeto. Um projétil

estou cheio de prédios
voltas hélices passarelas
o metrô corre atrás do próprio rabo
um tranco, não tem quem fique em pé
você me diz: nunca dês um nome a um trem
sempre é outro trem a passar
eu digo: ha. Ha ha
ha ha

você está de dieta ou desistiu, afinal, de descortinar
uma grande verdade interior? Teus olhos têm um ar de perda,
pendem, como os seios de uma mãe antiga. Tanto tempo passado
em ônibus que a gente aprende à força o prazer do caminho
chegar lá é sempre um pouco
desorientante

precisamos de um plano. Um projeto. Um projétil

(de Synchronoscopio, 7Letras)




ANSIEDADES QUANTO A UMA ACADEMIA

I.

inscrevo-me no plano trimestral
atividades aquáticas:
duas sessões de hidroginástica
e uma de natação
por semana
durante (o que se obvia) três meses

II.

das turmas de natação
(me entregam o demonstrativo na secretaria)
escolho a Medo D´Água
todas as quartas pela manhã
com o professor Tomás
a quem já ouvi chamarem Tômas
o que me constrange
não sei como me dirigir a ele
professor?

III.

a turma Medo D´Água
todas as quartas pela manhã
consiste de mim e de Ada
gaúcha septuagenária
fóbica
cujo desempenho
cotejado com o meu
deixa muito a desejar
(pareço dominar
o conceito de horizontalidade
melhor que Ada)

IV.

Professor Tomás
ou Tômas
me faz pôr os pés de pato
embaixo d´água
pergunta quanto calço
respondo quarenta
na verdade trinta e nove
mas meus pés são gorduchos

V.

tenho medo de tirar os óculos
porque eles fazem um vácuo incômodo
em torno dos olhos
tenho medo de tirá-los
e os olhos juntos
caindo à beira da piscina
ou na própria piscina
assustando as criancinhas que aguardam
perto do chuveiro
e as senhoras da hidroginástica
(Ada desmaiando)
eu nunca mais seria qualquer outra
coisa que não o sujeito cujos olhos
saltaram das órbitas à beira da piscina
sugados pelo vácuo que os óculos fazem
em torno dos olhos
ao serem retirados
meus óculos fabricados na China

VI.

metido nessa sunga insensata
tamanho G
(sinto que decepcionei os funcionários
da loja de artigos esportivos
meu excesso de corpo não se nota assim
à primeira vista
há táticas como se sabe
tons escuros listas verticais)
os óculos que puxam meus olhos
e a touca que me comprime as idéias
pergunto ao professor se ela deve cobrir
também as orelhas
o que já me parece excessivo
Tomás (ou Tômas) recomenda que eu use
um tampão
isso também me parece excessivo

VII.

um lance de escadas aparta
o parque aquático
do vestiário masculino
tenho de ganhar
essa distância
subjugá-la
metido numa insensata sunga
tamanho G
às mãos a touca e óculos
pendendo úmidos
não tenho roupão
o vestiário masculino me apavora
é possível que no longo desse poema
eu não tenha intentado tratar
de outra coisa que não
meu pavor meu absoluto pavor
ao vestiário masculino
coisa que até agora não fiz

VIII.

talvez esse poema seja sobre a nudez
(modalidade do corpo
que não costumo praticar
com muita freqüência)
ou sobre todas as modalidades
do corpo que não costumo praticar
com muita freqüência
todo esse potencial do corpo
que não se realiza
de inopino as mãos do professor Tômas
ou Tomás
em cima de mim
embaixo de mim
e minha cabeça enfiada n´água
já que não estou tendo uma experiência erótica
não absolutamente não estou

IX.

o servente
no vestiário masculino
me olha
de alcatéia
não posso lhe pedir que pare
que pare imediatamente com isso
porque provavelmente não é o caso
estou imaginando coisas
estou sempre imaginando coisas
o servente no vestiário masculino
não me olha de alcatéia
não absolutamente não me olha
(por que um? por que outro?)
mas é com muita consciência
que opto por não tirar a sunga
ao me enxugar
(na rua a marca d´água
na bermuda)

X.

bom trabalho Ismael!

meu nome é Ismar

(de Synchronoscopio, 7Letras)




APARTAMENTO

o espaço é parado e pulsa, inscrição num mar de silêncio

peça à peça
desentreteço o aparta
mento; pé ante
pé – pensemos bastante
uns tantos temporais
depois nos é dado
o lugar-comum
duma ilha; pequenas intromissões
da cafeteira
gorgolejando
pouco muda (quase nada)
se o vizinho abre
uma janela ou deixa
de abrir

outras tantas, mal amanhece
baixa a maré
as mesmas portas vão abertas
espécie de missa no quarto ao lado

tijolos
argamassa de medo

(de Ramerrão, inédito)





BIO/BIBLIOGRAFIA



Ismar Tirelli Neto é carioca e nasceu no ano de 1985. Isso depois de Cristo. Acaba de lançar seu primeiro volume de poemas pela 7Letras, chamado “Synchronoscopio”. Blog:http://www.sonetosoitavaserie.blogspot.com/.




POÉTICA



Não sei ao certo, mas desconfio que algo próximo do Nashville
, do Altman.

Monday, August 18, 2008

NORA FORTUNATO









Mencionada por:

Daniela Storto

Menciona:

Maira Thorley
Suzana Vargas
Flora Furtado
Mércia Menezes







POEMAS


Garçonete

elas se conhecem
as moças
do café
elas me conhecem, ou
pelo menos
reparam
no correr do meu
estado
o que se apresenta

talvez leiam os puzzles
em mim

é curioso notar
isso
durante a tarde





RECEIA SABER a ponte
que a levará ao próximo galpão
a amplitude de sua voz

nem por isso se despede das frias lantejoulas de agora
(pendura-as nas sombras de dúvida)
aspira, aspira: aspira
em uma volta, escute:
datas, situações
era tudo assim?
e você se dá bem com isso?

com o sol enroscado na manhã
em golpes de luz
acorda seus pés
páre agora para retratá-la, a manhã
quando as janelas são só rotinas
quando os passos do mundo estão à sua
volta

depois de múltiplas manhãs
nem sabe pousar a pele sobre si mesmo
por isso, um espaço para si
estaria tudo à mesma
fugir da eletricidade do Tempo
de repente, como é de literatura, algo acontece
mas o quê?
não ouve na estante nada molhado
não vê areias estações ladrilhos
nada acontece
ela esticou a mente e se pôs a graduá-la:
fria
morna
ácida







a esta experiência
se somam dois lados



ela cheira suas roupas
pra saber se tem valor
eu as arrumo em cores



plastifico o dicionário
como nos tempos de escola
e insisto no amarelo
ela enche de sacos plásticos a geladeira



a céu aberto,
todos a observam
ele se mira no espelho
do elevador
frente às câmeras





BIO/BIBLIOGRAFIA




Nora Fortunato nasceu em Jundiaí, SP, em 1975. É violoncelista .Tem poemas publicados na revista Inimigo Rumor 18 e 19. Prepara seu primeiro livro de poemas. Mantém o blog www.norafortunato.blogspot.com.





POÉTICA



Preciso de poesia, de invenção, para refletir. Faço poesia para apalpar o subjetivo, para o que me escapa. Gosto de ver as possibilidades controversas e da possibilidaDESobservação do cérebro quando convulsiona. Nas palavras de Carlito Azevedo:
a idéia é por as duas mãos no centro nervoso do delírio.