Tuesday, December 05, 2006

CLÁUDIO NUNES DE MORAIS

Caraíva-BA 2006. Foto: Verônica Mendes Pereira


mencionado por:
Júlio Castañon Guimarães
Carlos Ávila

menciona a:
Laís Corrêa de Araújo
Affonso Ávila
Wladir Caldeira de Morais
Duda Machado
Júlio Castañon Guimarães
Suzana Nunes de Morais
Carlos Ávila
Ronald Polito
Júlio César Abreu
Andityas Soares de Moura



poemas:



ÁGUA-TINTA


Fevereiro é um pássaro. Veio, março
na flor das águas, num momento, e partiu.

O que veio a seguir foram águas. Águas
de janeiro, as primeiras chuvas que caem

depois de um verão. Assim como as primeiras-
águas, chuvas de trovoada em novembro

e dezembro. Assim, sem dizer água vai,
e a dizer água vem, gravaria, um por

um, todos os meses, as quatro estações
a água-tinta, gravada à vista de ex-

tintas águas. Água passada. Se é que
passou. O certo, certíssimo é que não

ficou. Nem fevereiro. Veio, janeiro
na flor das águas, num momento, e partiu.

(do livro Xadrez via correspondência, 1997)



ALGUNS GUITARRISTAS


Ouvi Manolo Sanlúcar
e Isidro, o mano fiel:
de suas cañas, o açúcar

por entre os caules de fel.
Ouvi também, no Brasil,
Cañizares (Juan Manuel):

ciência, vasta e não fácil,
mas espontânea, apresenta.
Ouvi depois esse anil

das mãos de Amigo (Vicente),
que apresenta em outro tom
Córdoba: explosivamente.

E antes Solera (Antonio)
–– ouvi (ou vi) bem de perto
(e revi) ––, em Carmen: dom,

Bodas de Sangre em concerto.
Mas ouvi Francisco Sánchez
Gómez, Paco (o mais deserto

da história: numa avalanche
de toques que invade e muda
o toque, como revanche:

a guitarra mais aguda,
mais musical, a fronteira
também do grave, sisudo):

“o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra”,
o que calcula as maneiras

de cada corda que vibra
e acorda em toda a magia
do “fluido aceiro da vida”

a frágua, a gitanería,
sim, ouvi Francisco Sánchez
Gómez, Paco de Lucía:

cultivando uma avalanche
de toques, mas com mão certa,
não deixa que se desmanche

o toque que se completa
com o elenco dos tablaos
e das peñas mais secretas,

pois tal guitarra, ou granada
que explode à frente do elenco,
sempre renasce –– extremada ––

dos pés, da voz do flamenco.

(publicado na revista Cacto, n. 2, outono/2003)



PUNHAL DE PRATA


E ouvi muitas outras coisas.
Águas fundas. Águas rasas.

Nesta rua (Amor de Dios),
por exemplo, as águas bravas
de sua guitarrería.

Sempre soube o que matava.
Sempre soube quem morria.

(publicado na coleção Relógio do Rosário, outubro/2004)



breve bio/biblio:

Cláudio Nunes de Morais nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1955. Músico, autor do livro de poesia Xadrez via correspondência (Sette Letras, 1997), traduziu duas séries de poemas de Paul Valéry: a primeira foi estampada na revista Cacto, n. 2 (outono de 2003); a segunda no Suplemento Literário MG, em abril de 2006 (
www.cultura.mg.gov.br/arquivos/SuplementoLiterario/File/sl-abril.pdf). Traduziu também, desta vez em parceria com Rogério Silveira Muoio, o Dicionário abreviado do surrealismo, de André Breton e Paul Éluard (publicado em edição especial do Suplemento Literário do jornal Minas Gerais, em 1986), e participou da antologia Na virada do século, organizada por Claudio Daniel e Frederico Barbosa (Landy, 2002).




poética:



O LIVRO ABERTO


Muito além (e aqui
as nuvens, o chão)
de um livro fechado
na palma da mão

(a rua, folhinhas
ou dias, semanas
e meses do ano
as fases da Lua

das noites ardentes
à manhã mais fria
entre um par de datas
igualmente exatas)

E a canção de suas
páginas ao vento
(de duas em duas
sob o firmamento)

(publicado no Suplemento Literário MG, maio/2005)




2 comments:

afonso h r alves said...

Sonoro xadrez. peça na mão até a escolha do chão.
Grão afinado a jogar.

Eva said...

He descubierto un bello poeta en la playa. en una playa que me gustaría conocer. Gracias por tu poética, gracias por tu poesía.

Eva
evamurari@hotmail.com