Wednesday, July 08, 2009

ROBERTA FERRAZ










Mencionada por:Ricardo Pinto de Souza
Menciona:

Virgínia Boechat
Danilo BuenoGabriel Kolyniak
Erica Zingano
Marcelo Oliveira
Renata Huber





CANTE GITANO

À Maria Lucia Dal Farra
À Lilian Jacoto
À Juçara Correa
À Estrella Morente




ROMA

estela cerco pós de areia
olhos barbados que não escolhem
escorrem caminhos, desfeitos
goela ao vento encontram a ida
que toda já não passa
de retorno
à estela ao cerco pós de areia

entremeio passo e golpe
o mato nu come a carne do plexo
e o sexo faz tranças no ouro
das gengivas dedilhadas porque amamos
a busca de não-estar

chegar adormecido ao início
já que o curvar-se é todo não
deixar de matar o que encurva
ganhar mão para tocar-te
cerca viva de jornada
só a isso e ao que endura

o fogo de não-estar
lenha graxa de não-haver
tórpida dança de não-ir

nostálgicos do não-
lugar






FLAMENCO

Sulcar o caudaloso de um rio
até o encontro com a haste dos cabelos
que é a dança

Eu enfaixaria teus sonhos num damasco
tendo no ombro o lusco-fusco de um cristal
ardendo abrir-te à coloração negra
e ensaiar o espaço
entre meu corpo e a lunação

Rugas olhos pesados palmas
bater no meio de uma tarde o calcanhar
vertebral apetite de quem é vivo

As mulheres estão todas fortes
em seus laços florescidos de escuro
Minha manhã é um caminhão encostado
nas águas, bordoada de vento
com chapéus e garrafas

Sobre o vau de um tempo estanque
homens como sons duelam
a viagem de meu nome
Como um tálamo de vinho
corrói e acalanta






SENDEIRO

é então onde renovo a tua pele
Os escorbutos e o gengibre selam os modos
- dupla concavidade do real –
princípios sonoros da aragem

O rouxinol desce ao teu berço sonolento
pondo na porosidade, amor, gotículas de sal
e vocálicas, como primeiro órgão
do rocio. Esta colcha envelhecida de currais,
leite, e moscas, do canavial

Isto tudo se despede, abre a cartilagem
Dissolve-se no choque-elétrico da noite
que ao chegar à realeza
este onde, nos apresentamos

Não seremos dos lugares. Isso nos respira.
O só é mata-burros, os animais têm
asas, e tu pegas o carvão das foices
batendo para que eu avance e molhe
o ato num desenho ritmado

é então a pele, silvestre, onde se experimenta
a guitarra do onde
sanguíneos, amamos





BIO/BIBLIOGRAFIA



Nasci em São Paulo, em 14 de novembro de 1980. Vivi os primeiros dezoito anos no interior, mexendo com cavalos, bichos, ruas vazias. Após, retornei à capital, estudei Letras na PUC-SP e História na USP. Publiquei em 2003 meu primeiro livro, de contos, Desfiladeiro. Fiz o mestrado, na USP, em literatura portuguesa, em que estudei a tradição mítica portuguesa e sua relação com a literatura do século XX, principalmente aquela publicada nos periódicos dialogantes d’ ‘A Águia’ e da ‘Nova Renascença’. Aconteceu em 2008 a premiação, na categoria Texto do Programa Nascente da USP, do meu livro inédito lacrimatórios, enócoas, previsto para publicação em breve, pela Oficina Raquel. Agora, escrevo, e preparo-me para a chegada de Saturno.




POÉTICA


Poética, como coisa solta, dispersa de seus agregados, atônita, recém-nascida, parece-me o que vai cavando corpo com o lento júbilo da destilação. Parece-me conter uma mistura e separação de líquidos, de estados fluídos, de magmas, de represas. Suor torcido, goteiras, algo assim. O elemento líquido aparece com vigor quando penso dedicadamente algo como ‘poética’, essa voz alcoólica que sobe e desce pelo corpo, quem sabe abrindo mais seus poros, seus canais, quem sabe dando mais tino e estranhamento ao percurso (antes e quiçá depois inconsciente) do sangue. Enquanto escrevo isso, hoje, é líquida para mim a coisa como poética.

6 comments:

JESSÉ BARBOSA said...

PARA MIM, HÁ UM LIRISMO INTIMISTICAMENTE GUTURAL E, AO MESMO TEMPO, PERSCRUTADOR, FILOSOFAL FLUINDO PELA CORRENTE SANGUÍNEA DOS SEUS VERSOS. A SUA POÉTICA PARECE QUERER SORVER SEMPRE O NÉCTAR DE NOVOS HORIZONTES E DESCOBERTAS:
SUA ESCRITA NÃO-LINEAR, DOTADA DE SENSORIEDADE EXPRESSA ISSO.

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Priscila Lopes said...

Belo "achado"!
Reforço a menção à Erica Z.

Mariana Botelho said...

bonito. :)

Cândido Rolim said...

Roberta, gostei de teus poemas (mais dos dois ultimos). pareces abandonar um pouco as obsessões sintáticas contemporâneas que apenas roçam a carne das coisas vividas, depositando perplexidades postiças. legal coisas do tipo "e tu pegas o carvão das foices/batendo para que eu avance e molhe/
o ato num desenho ritmado". cosntruções desse calibre alertam para um percurso gráfico-inventivo por uma experiência entranhada na autora, mas partilhável, dis-seminável, com um gozo a mais. valeu mesmo.
abraço
Cândido Rolim

Anonymous said...

cubos mágicos com "rotas de fuga desobstruídas"...
quero chegar nesse nível, quem sabe um dia... leonardo aldrovandi

Raphael Grizotte said...

Bom sou à favor desse dizer, liristico.
Seco é entusiasta gosto.
Sem duvida um espelho.
do que não vemos falta.