Friday, July 20, 2007

FABRÍCIO MARQUES





mencionado por:
Ricardo Aleixo
Maria Esther Maciel

menciona a:
Jorge Emil
Maria Esther Maciel
Ricardo Aleixo
Guilherme Mansur
Maria do Carmo Ferreira
Edmilson de Almeida Pereira



3 poemas - do livro “meu pequeno fim” (2002, Scriptum).


ÊXODOS

vá para o ardor que te adense
vá para o salto que te sacuda
vá para o passado que te pertence
vá para o ruído que te restaure
vá para o frêmito que te festeje
vá para o vértice que te vasculhe
vá para o crepúsculo que te carregue



A TARTARUGA TARTAMUDA

deixem passar, abram alas amiúde
à tartaruga que, de ruga em ruga,
só pede calma ao tempo, tartamuda,
pra aprender a envelhecer dentro
da juventude, de ruga em ruga



OUTRA COISA

não é arma
não é arte
que disfarça
é outra coisa
parece que é
babel
balbúrdia
alvoroço
mas não
é outra coisa
não é
estardalhaço
não é farfalhar
de árvores
é outra coisa
que deu o ar
de sua graça





bio / biblio

Fabrício Marques nasceu em 22 de novembro de 1965, na cidade de Manhuaçu, leste de Minas. Poeta e jornalista, é mestre em teoria da literatura, com dissertação sobre a poesia de Paulo Leminski, e doutor em literatura comparada, com tese sobre a poesia de Sebastião Nunes (as duas pós-graduações na UFMG). Foi editor do Suplemento Literário de Minas Gerais (2004), e também trabalhou na revista Palavra (2000). Publicou Samplers (poemas, editora Relume Dumará, 2000, Prêmios Culturais de Literatura do Estado da Bahia), Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski (ensaio, Autêntica, 2001), Meu pequeno fim (poemas, Scriptum, 2002) e Dez conversas (entrevistas com poetas contemporâneos, edição bilíngüe, Gutenberg, 2004). Participa das antologias Na virada do século: poesia de invenção no Brasil (orgs. Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, Landy, 2002), e Poesia em movimento (org. Jorge Sanglard, Editora da UFJF, 2002). Também integra Os cem menores contos brasileiros do século (org. Marcelino Freire, Ateliê Editorial, 2004).



poética

POESIA-ZELIG

Em “Zelig” (1983), Woody Allen apresenta um “documentário fictício” em que o protagonista assume características (sotaque, etnia, profissão) de determinada pessoa ou grupo de que se aproxima. Para Robert Stam e Ella Shoat, esse personagem-camaleão “acaba por fazer uma metáfora da própria intertextualidade, na medida em que o filme, da mesma forma que seu protagonista, assume a coloração de seus textos interlocutórios”.
Minha poesia é uma espécie de Zelig, que se apropria de “palavras alheias”, usadas com outra intenção, e dá-lhes uma nova orientação irônica. Essa especificidade pode ser sintetizada no verso de um poema, “Fotografias”, em que inverto um verso conhecido: “Segurem-se/ O outro é um eu”.
Ricardo Aleixo (2000) observa nessa poética, na tentativa de dizer em nome de um “terceiro”, de um “sujeito-ninguém”, uma “vivência serena e irônica, auto-irônica, de um exercício de “dissolução do ego” via poesia: afinal, quem fala ao leitor, daí de onde nenhuma “identidade” fala?”
As muitas vozes que compõem a voz do autor não o despersonalizam; e o autor, paradoxalmente, cria sua “identidade” da “junção dos destroços”, dessa escrita fragmentária.
De sampler em sampler, minha poesia é um rufar de pétalas no ouvido da memória. Mas sem pétalas.

1 comment:

afonso alves said...

Pétalas caídas à força
sina de zênite, irradiar:
crava no cantochão
estreitos secos;