Monday, July 30, 2007


RONALDO BRESSANE


mencionado por:
Sergio Cohn
Joca Reiners Terron

menciona a:
Vão os amigos que não encontrei aqui:
Bruna Beber
Marcelo Montenegro
Paulo Scott
Ricardo Miyake
Xico Sá




3 poemas

Estratégia de branding

Demarca território neste couro
com os dentes escreve nome e sobrenome
vermelho roxo e verde pro teu logo

Com as unhas anota instruções pra este uso
o que é teu embala com saliva suor e seiva
nesta página escande ou rasura a tua serifa

Demarca território neste couro
só não repõe no mercado este produto
– antes ruminado em fogo de marfim
que reciclado em brechó ou camelô

Se der na telha, rasga, frita e come
: só não o devolve nunca sem teu nome


Ontem em Buenos Aires

Felizes frente ao cemitério
Pedimos a última Quilmes
Está linda nessa digital, digo
Ao lado da tumba de Evita
Nem se percebe quem é quem
Você se levanta rebolando
O sol reboa nas cruzes por sobre os muros
E o garçom sem gorjeta chia
Um beijo atrás da placa art decô do metrô
Mas você some no subterrâneo
Te amarei como nunca, agora
Que já é ficção


Nevermind Neverland

Faz sol chove venta garoa
e nuvens voam velozes
como nas telas de Turner
sinto fome sono saudade
gente grita em mongrego
hebrárabe aimarusso e até inglês
viro estátua em Kensington
Peter Pan ergue braços pretos
me sopra mind your mind
esquilos me pedem rango
gringos exilados pedem rango
o guitarrista do tube pede rango
e uma banana custa um dólar
no meu país compraria dúzias
uma nova tropicália em Hoxton
os risos dos amigos apagam
as 52 cruzes de King’s Cross
sete do sete uma santidade ímpia
severa como os parques londrinos
há virgens com véus nos cabelos
e putas com véus nos olhos
todas com bundas tristes
hoje almoço uma Guinness
gente grita em tupinésio
francoviet falsofarsi nipohispano
teutocoreo italoruba portinglês
não estou aqui e ainda estou
como em um sonho de outro
em todo canto há placas
informando aonde não ir
em todo canto há câmeras
informando que sou ator
no filme de um ser anônimo
Londres é um parque temático em si
e no tube avós espiam minha mochila
please dont’ you be very long
please don’t belong
me pede George no iPod
o exílio não é pra quem pode
e é proibido fumar nos pubs
os dias passam velozes
fome sono saudade libras somem
minha barba cresce atroz
os pés viram cascos de cavalo
viro planta no Hyde Park
viro bomba no Eros de Piccadilly
viro aramaia afrisânscrito mandatim
viro o Thames a cor dos teus olhos
I wish I was at the Big Bang
nevermind the gap diz Peter Pan

Bio/biblio
Nasci em 1970 em São Paulo. Jornalista, editor e corinthiano, escrevi a trilogia de contos A outra comédia, formada por Os infernos possíveis [Com-Arte/USP, 1999], 10 presídios de bolso [Altana, 2001] e Céu de Lúcifer [Azougue, 2003], além do volume de poemas O Impostor [Ciência do Acidente, 2002]. Esses poemas aí anotei entre 2004 e 2007; fazem parte do livro Lua vermelha e podem virar papel a qualquer momento. Hoje trabalho como redator-chefe da Trip [http://www.trip.com.br], mantenho o blog Impostor [http://impostor.wordpress.com] e tento ensinar o canhotinho Lorenzo a bater na bola com a perna direita [cabecear com a testa e de olhos abertos ele já aprendeu].


Poética


meu filho perguntando como existem coisas que existem mas não existem
o medo do goleiro diante do pênalti e o tesão do atacante diante do gol
tantas mulheres voando que não vejo a lua as estrelas o espaço sideral

1 comment:

O Arquiteto das Palavras said...

Já que fui citado pelo Bressane, é bom dar notícias de minha real existência, não? Pronto: aqui estou.