Friday, October 12, 2007

LEANDRO SARMATZ





Barro

No barro escuro,
na noite escura,
na pré-noite de todas as noites escuras
feitas de cinza e merda e gritos.
Na noite silente do gueto.
O cheiro é uma mistura de peixe
e morrinha de roupa negra.

(Esta é uma epopéia subterrânea de cheiros,
pestilências e ocasionais martírios.)

O pão é de centeio,
com ele é possível esculpir figurinhas doentias e encurvadas
pelo frio e pela fome:
fantasmagorias de carne e ortodoxia.

(Do poema Golem, ainda inédito)

Fevereiro de 2001

No holtezinho fuleiro em frente à Gare du Nord nós trepamos pela primeira e última vez.
Era argentina. Vinha de Rosário. Era pequena e miúda como um efebo, a bunda estreita de [efebo, uns pezinhos cor de barro.
A mãe estava pelas redondezas. Circulava com o namorado, outro argentino radicado desde [a última quartelada.

Conheci-o mais tarde, o perfil adunco, ar de quem acompanhou a vida com uma úlcera.
“O mais importante”, disse-me dentro de um café horrendamente decorado com máscaras [do carnaval veneziano e fotos da família de monsieur Faisal, o dono do pedaço,
“é aprender a escutar a úlcera, sua linguagem, sua prosódia, seus apelos tão particulares.”
“A úlcera dialoga, a úlcera fala conosco em sua linguagem entranhada.”
“Esqueça Dujardin, esqueça Joyce”
(era um literato),
“A verdadeira voz aqui dentro é a ardência dela.”
E percutia os nodosos dedos na altura do diafragma.

“Uma vez estive com Borges”, sorria.
“Há um clichê terrível nessa afirmação: qualquer um
que escreveu naquele país entre 1938, digamos, e 1986, esteve alguma vez com Borges.”

(E quando dizia “naquele país” eu já sabia que isso significava a Argentina,
nome nunca proferido, Adonai de exilado.)
“El viejo era generoso e fraco como uma putinha bexiguenta.”
“Foi por volta de 64, ele havia publicado El otro, el mismo”.

Ficou então alguns segundos em silêncio.
“Você o leu?”
É claro que eu tinha lido.
“Tem aquele poema sobre o golem, lembra?”
“Um poema magnífico, musical, arcano como tudo o que ele perpetrou.”
“Mas é um poema tremendamente equivocado. Completamente equivocado.”
Desfrutou um pouco do efeito da surpresa.
“Borges lia muito, mas, às vezes, lia meio atravessado,
aquela leitura diagonal e apressada que nós, que já fomos
estudantes diligentes, sabemos direitinho como é.”
Piscava então o olhinho com um ar matreiro.

“Borges descobrira Scholem, lera-o algumas páginas,
estava absolutamente fascinado pela mescla de erudição
e crença genuína.”
“Scholem lhe deve ter parecido um antídoto para o golem
deturpado de Meyrink, o famoso episódio sobre a leitura de Der Golem
nos anos imaturos de Genebra.”
“Mas El viejo tinha um gosto por aqueles filmes de monstro dos estúdios Universal.”
Tomava um último gole de café, alheio à úlcera e à realidade.

Escurecia e começava a chover. Era fevereiro na Europa,
Paris era Paris: mas também era apenas de onde falávamos da terra
vazia e sem memória, pampa com Alzheimer..
“Releia o poema”, dizia com um ar professoral
que combinava
com seu suave desalento de exilado.
“Tem um pouco de Boris Karlof.”
“Releia-o.”Prometi.

“A legenda do golem é o anti-gótico: é um último apelo à metafísica
em um mundo regido pela estética”.
Tentava organizar a massa crespa de cabelos desgrenhados.
“Borges transformou-a em artifício expressionista,
repetindo, já velho, o estudantezinho míope de Genebra.”
“Um verdadeiro golem não se parece com um Frankestein do gueto.”

E dando por encerrada a conversa, pagou a nossa conta e seguiu rumo ao metrô.
Reparei então como andava encurvado, como em luto.

(Do poema Golem, ainda inédito)


À espera do canto

I
Morena, você canta para mim
É para mim que você canta?

O marinheiro só
na praia escura.
Na rua do fim da rua,
o marinheiro só.

Tão longa espera, à noite. Em densa
vaga, tateamos à procura
de um significado. Homens à prova d´água,
portas à prova de fogo. Há uma fuga
resignada, mais passeio para o nada
do que a própria fuga.
Em nossas águas nadam peixes, neurônios, amnésias.

Penso na realidade, jogo o jornal para bem longe.
Sou síntese do quê? De mim antes ou depois?
De nunca eu mesmo?
Sou síntese?

II
Ulisses, tão mouco a navegar,
tapou os ouvidos com pegajosa e fresca
cera. Também fez-se amarrar ao mastro,
entre sorrisos e amavios:
quis capturar e ser capturado,
quis brilhar ao contemplar o brilho,
folhear a nudez obscura, os papéis, os contratos, as palavras cruzadas, o salmo, os verbetes,
[o reclame, o epitáfio, a canção, o enunciado, o poema.

Orfeu, teu canto resignado
após as cinzas é sucedâneo
cruel, sem compaixão,
do estribilho de outro canto
opaco; triste e sentido
que entoamos, papalvos, embriagados
de nós mesmos a cada noite,
a cada tic-tac do relógio,
do coração,
do sexo.
Moldado em barro,
murmúrio e disparate.

III
Numa noite distante no tempo e no espaço,
numa noite no Leste,
madrugada na casa paterna:
deu um clique na cabeça
e a história fez-se história
e trouxe a sentença irrevogável.

Manhã, as pernas dormentes
não sustentam o esqueleto
humano, essa triste armadura de pó sob as carnes
frescas a transpirar por essa pele
debaixo do tecido dos andrajos.
Difícil levantar numa hora dessas.
IV
O marinheiro só
na praia escura.
Na rua do fim da rua,
o marinheiro só.

O marinheiro só
escuta a sirene
ao longe, na avenida.
O marinheiro só.

É doce morrer no mar,
no sal amargo da margem.
A imagem mais real
é essa que não levamos.

Diga a ela que eu não vou
partir de manhãzinha:
vou à noite, que convém.
Diga a ela que eu não vou.

V
A sereia pega no batente às 11 horas
da manhã. Chega fresca, os cabelos
molhados. Vem da cidade nova.
A sereia pinga aqui e ali a gota acre
do sangue ultramarino, odor de tempos
em que ainda não se contava o tempo,
não havia sol nem norte:
só abismos, ações e mistérios.

Diz-me, sereia,
se há lá fora,
além do limite
das janelas,
uma vida real
ou se é miragem
o mundo anunciado
pelas chuvas?


Ouço teu canto
revérbero que
bolina meu ouvido,
esse teu canto
sem música:
clarim do dia
à espreita
daquilo que perdemos:

um corpo material
e outro corpo, fluído,
que corre contra
a maré; não mais
corpo nem matéria,
não mais coxas, bocas,
seios. Divisão.

(Como em espetáculo circense, em que a serra cenográfica e as caixas coloridas
simulam destroçar as partes de cima e de baixo enquanto o público, tenso,
respira aos goles o horror antevisto da repartição e goza antes o mistério
do corpo unificado, assim teu corpo é cindido de mim e do meu gozo, gesto e refração
no espelho aquático: correm rios, mares, poças.)

VI
Lá do fim da arrebentação
onde a voz agora abafada
traga meu corpo e seus segredos
busca meu ser estremado
sem partes reconhecíveis
nem resquício de forma
feição ou precisa estrutura
vejo um gesto solto no espaço
não sei se me chama ou se vem
tampouco se entendo o que vou.





Biografia

Nasci em 1973, em Porto Alegre. Vivo em São Paulo desde 2001. Sou jornalista e dramaturgo.


Poética

Minha família falava iídiche. Eu não falo iídiche.Mas tenho a memória: ela me serve como um idioma.





6 comments:

Lu Menezes said...

Caro Leandro Sarmatz,
li ontem à noite seus poemas e hoje acordei tendo visto em sonho uma figura familiar "recurvada", transitando entre cais e navio, esculpida não em "pão de centeio", mas certamente através do fermento de sua poesia, capaz de medir forças com o mito. Avise quando o livro sair. Abraço matinal,
Lu Menezes

sarmatz said...

Opa, Lu,
obrigadíssimo!
Pode deixar que eu aviso.
Abraços,
L.

eduardo said...

publiquei seu poema "barro"
num blog/acervo de poesia

espero que não se importe...

gostei muito dos dois que li
(barro, fevereiro de 2001)
só falta o terceiro

Ilton said...

Leandro, estava buscando sobre o Golem e acabei em tuas poesias. Adorei elas, quando vieres a Poa quem sabe podemos conversar?
Ilton Gitz

sarmatz said...

Opa, Ilton, que surpresa!
Quanto tempo, hein!
Abração,
L.

apanhadordearrepios said...

Leandro,

Gostei muito dos seus poemas.

Abraço,

Robson