Saturday, October 13, 2007

RÉGIS BONVICINO





Masé Lemos

menciona a:
João Cabral de Melo Neto
Carlos Drummond de Andrade
Murilo Mendes
Torquato Neto
Paulo Leminski


Poemas:

Caminho de hamster



Fedendo a cigarro e a mim mesmo
cruzo uma avenida
ao anoitecer
sirenes, carros

vozes abafadas
avenida larga e áspera
numa rua transversal
o cadáver de um cachorro

atropelado
rodas metálicas em ritmo lento
fedendo a esgotos e a mim mesmo
a um pouco de fogo, do isqueiro

fedendo como aquela maçã podre
fedendo a música estúpida
desses tempos
e a mim mesmo

o lixo recolhido exala
um cheiro nítido na calçada
fedendo a sapatos e a mim mesmo
a ratos, ao suor dos néons

a cadeiras e a mim mesmo
a notícias inúteis e a mim mesmo
fedendo sob a lua
narinas entupidas de gás carbônico

o som do motor do ônibus
fedendo as mesmas camisas
fedendo a miopia e a mim mesmo
fedendo a esquinas

exalando cheiros
fedendo a expectativas
que no entanto acabam
na próxima linha





Duas linhas



Mula de kleins, valentinos
guccis, missonis
cavalga num camelo
num gato e numa limusine

para as lentes de Testino
mula de Versace
fazendo sexo sáfico
com Sadie e Davinia

sempre em posições
impossíveis para dormir
andando a cavalo
com Marianne Faithfull

ouvindo as guitarras bárbaras
de “Sister Morphine”,
afogada em poças de perfume
guia dos amigos

também desprezíveis
obnóxios, párias
que fazem swing
musa do thatcherismo

bomba bêbada
usa disfarces
para revelar-se
no começo, transportava

nas calcinhas e sutiãs
em valises de Klein
delicia-se com iguarias em bandejas
I hate Kate

I push Bush
ficou quatro semanas imobilizada
por argolas fixas
grades pontiagudas

num quarto escuro
em permanente eclipse
e foi lavada com água suja
para que refletisse



a fome arranca as entranhas
o som arrebenta os tímpanos
botas de veludo Alexander McQueen
negras

outro soldado entra
no quarto o alarme soa
estridente
e multiplica o suplício





DEFINITIONS OF BRAZIL

Brazil is located on the southern tears of the Americas
Brazil is a jungle with snakes who eat cakes
Brazil speaks Lebanese, Portuguese, Japanese, Guarnaríse, Tupiese, Inglese
Brazil is an adulterating medley of intoxicated syncopations
Brazil has no relationship with itself because it has a relation only to itself
Brazil lays its cool hands on your hot head
Brazil was colonized by Indians who turned the Portuguese into natives
Brazil’s Tolstoy is now doing tricks in a favela
Brazil is a land of palms and psalms
Brazil is the model of a model
Brazil is a charm bracelet that has become the necklace of the continent: São Paulo more European than St. Paul, Brazillia more bureaucratic than Geneva, Rio more alluring than Boca
“They've got an awful lot of coffee in Brazil”
In Brazil, the cuckoo sings “macaw, macaw, macaw”
Brazil is private property of no man’s God and no woman’s Fury
The patron saint of Brazil is its dreams, just as is its Devil
Brazil is a carioca not a polka
Brazil is Carmen Miranda’s Tutti Frutti hats, Caetano Veloso’s all-weather tropicalismo, Bebel Gilberto’s number on the charts.
Brazil is the Elis and Tom “Waters of March” International Airport and Spa
Brazil is caipirinha with feijoada (caipira with fedora)
Brazil is home of the cassava or tapioca, what you call yuca, or mandioca or aipim or moogo or macaxeira or singkong or tugi or balinghoy or manioc
Brazil is the black mask of the PCC inscribed with the words traitor, betrayer
Brazil is 186 million stories, 186,000 poems, but only these definitions
Put your stocks in Brazil and your bonds in China, or is it the other way around?
Brazil is a figment of the imagination of the Amazon
If Pelé is poet laureate of Brazil, without ever writing a word, then Ronaldo Gaúcho
is the Nijinsky, without ever having set foot in the Ballet Russe
Brazil is not emerging it’s proliferating
The official religion of Brazil is not just samba but macumba and umbanda, tarantella and churrasco
Candomblé is the Brazil wood of world philosophy
Brazil is Fred & Ginger Flying Down to Rio with Dolores Del Rio
Under the veneer of its vivacity, Brazil is violent, a vile viper playing a violet viola.
In Brazil, anything goes for a chance, for a price, for a piece, for a dance, for a fight, for a night; jeitinho brasileiro is born free but everywhere in chains
Brazil’s face never shows its heart even when they are identical
Brazil stars Bob Hoskins, Jonathan Pryce, and Robert DeNiro
Brazil was written by Terry Gilliam and Tom Stoppard
Brazil is concrete and syncretic
Brazil is impenetrable and forgiving
Brazil is cannibalizing and carnivallizing
Brazil is a baroque barcarolle with a bossa nova beat
Brazil’s Lula is a little loco, but not as loco as Lucy
On Ipanema beach, at the very moment when dusk turns to night, you can hear Orpheus singing for Eurydice; he sings an elegy called Brazil
In Brazil, the real is the only currency that counts

(with Charles Bernstein)









Entrevista de Régis Bonvicino à revista Teresa

Teresa. Como você pensa a relação entre o tempo literário e o tempo histórico?
RB. O tempo literário deve durar mais do que o tempo histórico, caso contrário não chega a se configurar como literário, haja vista – como exemplos de contemporâneos que foram bem-sucedidos em suas épocas e permaneceram – Camilo Pessanha, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Murilo Mendes e outros. No entanto, sem o tempo presente, não há poesia, mas algo inominável chamado de poesia. O poeta que não enfrenta as dificuldades do contemporâneo ou seu tempo histórico acaba por mimetizar o contemporâneo de ontem – o que ocorre à farta na poesia brasileira atual. Ela poderia perfeitamente não existir! Sua inutilidade e/ou desnecessidade advém desse epigonismo: o contemporâneo de ontem e anteontem, dos modernismos, concretismos, surrealismos, popismos, caetanismos, por meio da Tropicália, etc. etc. etc. Certa vez Drummond disse que havia se cansado de ser moderno e queria ser eterno. O equilíbrio entre tempo histórico e tempo literário torna um autor eterno e moderno na acepção de contemporâneo: “O novo que permanece novo”. Pessoalmente, se tivesse de escolher, sob riscos, ficaria com o tempo histórico, porque só ele me permite a invenção, e não a mera dedução de uma poesia imitada do “literário”.

Teresa. Quais procedimentos sua obra adota diante de um mundo em que predominam a ação econômica e a espetacularização da arte?
RB. Adoto os procedimentos da crítica, de ser crítico ante a economia e a espetacularização da arte; adoto também técnicas de contraste, de violência. Aliás, retomando, o inominável que se chama de poesia ora produzida no Brasil, esse inominável é pouco crítico e bastante fâmulo. Ele, esse monstro chamado poesia brasileira atual, mimetiza, às avessas, a espetacularização da arte: muita auto-promoção e nenhuma criação e/ou invenção, isto é, sem sentido crítico. Andy Warhol acertou: os artistas preferem a fama à lama.

Teresa. Qual reflexão sua obra produz sobre a tradição literária brasileira?
RB. Por uma questão ética, não me permito falar sobre meu próprio trabalho. Prefiro remeter os leitores de Teresa a meu website, , onde poderão encontrar alguns escritos alheios sobre o que produzo, e igualmente prefiro falar por meio do poema “Prosa”, que ora envio como parte da resposta.

Teresa. Como você pensa a forma literária?
RB. A partir de um diálogo entre a tradição literária e o agora, num confronto violento entre eles. O que produzo é muitíssimo diferente do que João Cabral produziu, mas sinto-me próximo dele, em todos os aspectos (menos na grandeza); não falo de mim em meus poemas. E dou importância ao acabamento formal de um poema. Se fosse um poeta norte-americano, gostaria de ter sido um objetivista (William Carlos Williams, George Oppen sobretudo). Dou importância para a linguagem e procuro juntar conteúdos à forma, mensagens às formas.


Prosa
Régis Bonvicino

Um poema não se vende como música, não se vende como quadro, como canção, ninguém dá um centavo, uma fava, um poema não vive além de suas palavras, sóis às avessas, não se vende como prosa, só como história ou arremedo de poema, não se vende como ferro-velho, pedaços de mangueira de um jardim, tambores de óleo queimado, sequer um pintassilgo, cantando no aterro de lixo ou a língua negra dos esgotos, que floresce algas, não se vende como grafite, não se vende como foto, vídeo ou filme de arte, não se vende como réplica ou post card, mau negociante de inutilidades, me tenha impregnado da praga das palavras









Régis Bonvicino nació en la ciudad de São Paulo, el 25 de febrero de 1955. Se graduó en Derecho en la Universidad de São Paulo en 1978. Trabajó como articulista del diario Folha de S. Paulo y de otros vehículos, hasta ingresar en la magistratura, en 1990. Desde 1992 está casado con la psicoanalista Darly Menconi y tiene tres hijos: João, 27, Marcelo Flores, 20, y Bruna, 14.
Sus tres primeros libros, Bicho papel (1975), Régis Hotel (1978) y Sósia da cópia (1983) fueron ediciones de autor. Hoy se encuentran reunidos en el volumen Primeiro tempo (Perspectiva, 1995).
Entre sus participaciones en lecturas de poesía se destaca su presencia en Buenos Aires (1990); Miami (Miami Book Fair, 1992); Copenhaguen (1993); y en la III Bienal Internacional de Poetas en
Val-de-Marne (1995). En París, realizó lecturas en la Maison de L´Amérique Latine, y en Marsella, en el Centro Internacional de Poesía. Las lecturas se extendieron a Berkeley (1996), con Michael Palmer, y a San Francisco State University. En 1998, se presentó junto a Charles Bernstein en el Segue Performance Foundation, de Nueva York. En 1999 estuvo en Santiago de Compostela, en la Universidad de Santiago. Realizó lecturas en Chicago y en Iowa City (2000), con Michael Palmer; participó del IV Encontro Internacional de Poetas de Coimbra (2001). Se destaca además su participación en la Feria del Libro de la Ciudad de México (2004). Su trabajo está traducido al inglés, español, francés, chino, catalán, finés y danés.
Entre 1975 y 1983, dirigió las revistas de poesía Qorpo Estranho – con tres números –, Poesia em Greve y Muda. En 2001 fundó la revista Sibila (), que codirige junto a Charles Bernstein e Idalia Morejón. Actualmente es publicada por la Editorial Martins Fontes.
Sus más recientes libros son Página órfã, poemas, 2007, y Um Barco Remenda o Mar/ Dez poetas chineses contemporâneos, 2007, coeditado con el poeta chino Yao Feng, ambos por Martins Fontes.



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Bibliografia

Poesía
Bicho papel. São Paulo, Edições Greve, 1975.
Régis Hotel. São Paulo, Edições Greve, 1978.
Sósia da cópia. São Paulo, Max Limonad, 1983.
Más companhias. São Paulo, Olavobrás, 1987.
33 poemas. São Paulo, Iluminuras, 1990.
Outros poemas. São Paulo, Iluminuras, 1993.
Ossos de borboleta. São Paulo, Editora 34, 1996.
Céu-eclipse. São Paulo, Editora 34, 1999.
Remorso do cosmos, Ateliê Editorial, 2003.

Plaquettes
Me transformo ou o filho de Sêmele. Curitiba, Tigre do Espelho, 1999.
Hilo de piedra. Plaquette editada por la revista Sibila; revista de arte, música y literatura, nº 10. Sevilla, oct. 2002 (con poemas de Céu-eclipse y Remorso do cosmos).

Antologías
Primeiro tempo. São Paulo, Perspectiva, 1995 (reunión de los libros Bicho papel, Régis Hotel e Sósia da cópia).
Sky-eclipse: selected poems. Los Angeles, Green Integer, 2000.
Lindero nuevo vedado. Porto, Edições Quasi, 2002 (con poemas de 33 poemas, Outros poemas, Ossos de borboleta e Céu-eclipse).
Poemas (1999-2003), Ciudad de México, Ediciones Alforja/Conaculta/Fonca, 2006.

Poema coletivo
Together – um poema, vozes. São Paulo, Ateliê Editorial, 1996.

Poesía Infantil
Num zoológico de letras. São Paulo, Maltese, 1994.

Crítica
Desbragada (antología y estudio de la poesía de Edgard Braga). São Paulo, Max Limonad, 1985.
Nothing the sun could not explain / 20 contemporary Brazilian poets. Edited by Michael Palmer, Régis Bonvicino and Nelson Ascher. Los Angeles, Sun & Moon Press, 1997.
The PIP anthology of world poetry, volume 3, Nothing the sun could not explain; 20 contemporary Brazilian poets. Edited by Régis Bonvicino, Michael Palmer and Nelson Ascher. Los Angeles, Green Integer, 2003.
Envie meu dicionário (cartas e alguma crítica), com Paulo Leminski. São Paulo, Editora 34, 1999.

Traducción
LAFORGUE, Jules. Litanias da lua. São Paulo, Iluminuras, 1989.
GIRONDO, Oliverio. A pupila do zero. São Paulo, Iluminuras, 1995.
PALMER, Michael. Passagens. Ouro Preto, Gráfica Ouro Preto, 1996.
CREELEY, Robert. A um. São Paulo. Ateliê Editorial, 1997.
BERNSTEIN, C., MESSERLI, D., COLE, N. e BENNETT, G. Duetos. Paranavaí. Editora UEPG, 1997.
MESSERLI, Douglas. Primeiras palavras. São Paulo, Ateliê Editorial, 1999.

Colaboración
Cadenciando-um-ning, um samba para o outro. São Paulo, Ateliê Editorial, 2001 (con Michael Palmer).

Artes Plásticas
Do grapefruit. São Paulo, Edição dos artistas, 1981. (traducciones de poemas-instrucciones de Yoko Ono, com trabajos gráficos de Regina Silveira y Julio Plaza).

Homepage
http://regisbonvicino.com.br









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5 comments:

afonso alves said...

Regis
a escrita perfila em certa direção móvel a aguda experiência de quem cuida e ao mesmo tempo joga com as palavras.
abraxas
afonso alves

alejandro mendez said...

Regis
bellísimos poemas con un sentido muy agudo de lo contemporáneo.
un "nuevo" siempre "nuevo"

Aníbal
felicitaciones por esta incorporación de lujo a tu blog

saludos desde Buenos Aires

Ramon Alcântara said...

Nossa! O personagem percorrendo caminhos que certamente o levam à residência do homem do subsolo dostoievskiano, e eu aqui na frente da tela de luz forte, secando as rimas e suando as curvas.... Regis com sua estrada, quero ir ao não-lugar.... Um abz!

Rui Xavier said...

Salve,
Sou leitor assíduo deste blog, dramaturgo e poeta diletante. Faço essa entrada para convidá-lo a dar uma olhada no meu blog - www.androidearcaico.blogspot.com.

abraço.

jessé barbosa de oliveira said...

amei, imensuravelmente,
o poema caminho de hamster
pois, na minha ótica,
nele você tece uma análise
visceral, profunda sobre este caráter de volatilidade e nojeira
que constitui o coração e o córtex
do mundo contemporâneo: o tirânico
reino dos arranha-céus.
tudo sob uma dupla perspectiva
que, afinal, se fundem:
o intimismo e a sublimação da putrefação.
jessé barbosa de oliveira