Tuesday, February 20, 2007

RUY PROENÇA



mencionado por:
Annita Costa Malufe
Donezete Galvão
Kleber Mantovani
Tarso de Melo
Luíza Mendes Furia

menciona a:Carlos Loria
Priscila Figueiredo
Fabio Weintraub
Carlos Machado
Ronald Polito
Ricardo Rizzo
Paulo Ferraz
Luiz Gonzaga
Rubens Rodrigues Torres Filho
Francisco Alvim
Donizete Galvão
Eucanaã Ferraz
Paulo Henriques Britto
Heitor Ferraz



3 poemas



A INVISÍVEL CICATRIZ




nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto

mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos


PARA SIMONE WEIL E JOAN BROSSA

Chegar
ao mundo
é fácil:

dia e noite
há portas
abertas.

Dura
porém
é a volta.

Requer
boa dose
de coragem

e muita
prática
em despojar-se.


TIRANIAS


Antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos.

Então,
falávamos baixo,
nos policiávamos.

Hoje
as coisas mudaram:
os ouvidos têm paredes.

De nada
adianta
gritar.




BIOGRAFIA
Ruy Proença: São Paulo, SP, 9/1/1957. Publicou: Pequenos Séculos, Klaxon, 1985; A lua investirá com seus chifres, Giordano, 1996; Como um dia come o outro, Nankin, 1999. Participou das antologias: Anthologie de la poésie brésilienne, Chandeigne, França, 1998; Pindorama: 30 poetas de Brasil, Revista Tsé-tsé, nºs 7/8, Argentina, 2000; Poesia brasileira do século XX – dos modernistas à actualidade, Antígona, Portugal, 2002; New Brazilian and American Poetry, Revista Rattapallax, nº 9, EUA, 2003. Seus trabalhos mais recentes foram publicados, entre outras, nas revistas Cacto nº 4 e Jandira nº 2.





POÉTICA

Uma poesia que esqueça em Marte o engenho e arte e, de regresso, pouse os pés no chão do coração. Que habite a rua e dela recolha o seu cantar. Penso em Charles Simic, um dia apresentado por Fabio Weintraub e Ricardo Rizzo. Simic que diz: “FEIRA// Se você não viu o cachorro de seis patas,/ sem problema./ Nós vimos e ele se deita num canto a maior parte do tempo./ Quanto às pernas a mais,// Rápido a gente se acostuma a elas/ E pensa em outras coisas./ Tipo, que noite fria, escura,/ para se estar numa feira.// Então o tratador atirou um graveto/ E o cachorro foi atrás dele/ Em quatro patas, as outras duas balançando atrás,/ O que fez a garota gargalhar.// Ela estava tão bêbada quanto o homem/ Que continuou beijando seu pescoço./ O cachorro pegou o graveto e nos olhou de volta./ E esse foi todo o espetáculo.” (Tradução de Fabio Weintraub, Zine qua non, nº 4.) Penso também em Chico Alvim. Uma poesia que fale da experiência comum, do outro. Não o estético pelo estético. Antes a prosa da poesia. Ainda que atrozmente lírica, como em Afinal, de Eucanaã Ferraz. O homem e a coisa no cosmos da poesia: Francis Ponge. Mas tudo não passa de um partido que escolhemos. E tudo é mutável. E a poesia se nega, nos nega. E às vezes nos escolhe.




4 comments:

afonso alves said...

Poesia Minha:

Morro abissal
Salino no entretempo
Poros nômades, algo a procurar.
Liso caminho, no risco traçado, crio.
Afonso alves

Pedro said...

Os ouvidos tem paredes é sensacinal.

Sérgio Alcides said...

Muito belos poemas!

Fabi said...

minhas paredes estão surdas
por isso
nelas escrevo meus poemas
só assim
minhas paredes escutam

gostei do blog!