Friday, November 24, 2006


menciona a:
(quem ainda não está presente)
Camila do Valle
Masé Lemos
Maurício Matos
Gabriela Nobre
Sebastião Edson Macedo




poemas


CINEMASCOPE

I

A VIDA SECRETA DE BARBARA STANWYCK

ninguém sabia
mas barbara era poeta e odiava o lirismo hipocondríaco
tinha paixão por carros conversíveis
e um namorado depressivo e maníaco
a moça estava cansada de seus óculos escuros
com eles o mundo era sempre noir
e ela
que não conseguia esperar
desejava compulsivamente
as novas lentes varilux

barbara não escrevia versos como quem joga xadrez
desprezava os assíndetos e os oximoros
e aprendia chinês

foi quando o sr. lin
– o professor de chinês que só falava mandarim –
denunciou a estupidez dos homens
e seus pensamentos em off
ela tomou um porre de vodka orloff
e decidiu abandonar hollywood

então armou um golpe fatal
com um quê de experimental

pagaria um piloto de prova
que já estava com o pé na cova
para capotar com o seu MP Lafer
ela receberia uma double indemnity
e viveria feliz em new york city

mas o plano não foi adiante
porque ela detestava destruir veículos
e raciocinava com perspicácia

barbara stanwyck achava que um automóvel tonitruante
era mais belo que a vitória de samotrácia




II

MARROCOS OU ALÉM

W. L. sempre chegava à noite, depois de ter matado baratas

ele precisava escrever o acúmulo viscoso dos devaneios noturnos, os vazios desproporcionais entre a realidade e o fora

sua mulher o beijava e o pó resplandecia na boca, ela desabotoava a blusa, o hálito entrelaçado aos odores da rua

era preciso matá-la

e o médico, um certo doutor B., abria portas janelas corredores oblíquos onde se morre aos poucos com o veneno agudo das lacraias

talvez ele devesse partir para Tanger, estremecer os ossos nos ruídos distantes em meio aos ávidos olhos mouriscos
ou permanecer de pé enquanto o veneno se misturava ao sangue

as palavras infestavam seus ouvidos, ele passava para o outro lado

alguém havia puxado um fio em alguma parte do universo e a trama do mundo se esgarçava

onde estaria sua clarck nova?

ele procurava

e sabia

sabia que o assassinato era uma alucinação na rotina, um espasmo entre as fibras da memória, uma contração nos molares

era preciso escrever ou permanecer para sempre em interzona



III

O NÚMERO TRANSCENDENTE

tudo se passou em chinatown
quando o cérebro esguichava a monocromática
tinta
e ele procurava a decifração do mundo
e os números
da bolsa

as entranhas expostas do computador
cuspiam uma álgebra difusa
confusa
de teclas e letras reluzentes
e uma pálpebra fina junto às outras membranas
congelava o tempo nos chips
de joalheria

depois vieram os rabinos
a cabala o sefer yetzirah
as perseguições casuísticas
a perfuração do hipotálamo
os anagramas convulsivos
as aptidões taumatúrgicas
e os jogos de azar

e ele
que amava insensatamente
os ângulos agudos
contemplava espirais segundo a razão áurea
nas folhas das árvores
na fumaça dos automóveis
na mistura de café com leite numa xícara
e esquecia arquimedes

por fim uma limpidez varava os espaços
tumultuosos
enquanto a transcendência do número brilhava
trivialmente
no sorriso da menina





BREVE BIO/BIBLIO:

Nasci em 1969 no Rio de Janeiro. Sou formada em psicologia, professora e doutoranda em literatura portuguesa. Pari alguns poemas publicados na revista Inimigo Rumor e na Zunái. Também estou prestes a parir uma menina.



POÉTICA:

Cinemascope: processo de filmagem com lentes especiais que deformam anamorficamente as imagens registradas em negativo de 35mm e as recompõem em cada cópia final, positiva, projetada em telas de grandes dimensões.

"O que eu pretendo fazer é distorcer o objeto até um nível que está muito além da aparência, mas, na distorção, voltar a um registro da aparência." (Francis Bacon)



7 comments:

leonardo gandolfi said...

Izabela, bom demais esse seu cinemascope: tem tanta coisa boa, tanta. Beijo do leonardo.

Anonymous said...

Izabela, parabéns! Gosto de teus poemas. Beso,

Claudio Daniel

Masé Lemos said...

Poxa Izabela, muito bacana! bejos, Masé

Caio Meira said...

Ótimos! Fiquei imaginando o livro de onde saíram esses poemas, ou então o livro que sairia desses poemas.

Caio

ana said...

que surpresa! gostei muito!
bjs, ana.

Anonymous said...

izabela gostaron muito teus poemas

beijos do bs as
lucas

Anonymous said...

Adorei ler vocês. : )
Carol