Friday, November 03, 2006

LUCI COLLIN


mencionada por:
Sergio Cohn
Adelaide do Julinho
Fernando Koproski
Estrela Leminski

menciona a
Sylvio Back
Alice Ruiz
Silvana Guimarães
Sônia Regis
Luiz Roberto Guedes
Renato Rezende
Sergio Cohn



poemas



FIGURANTE



os papéis menores
as falas insignificantes
aceito
até os silêncios
que me forem dados
expressar

com a transparência das deixas
nem tanto o que
represento
mas sim o que representa
a minha presença
nesse
palco




DOR MESMO


dor mesmo nem tanto a incisiva
- surpresa da faca na pele –
intensa dor mas reversível
ferida que enfim cicatriza

dor mesmo é aquela miúda
dor sempre que não envelhece
lateja esta dor – a mais funda –
de um ontem que nunca se esquece








SCHRIFTSTELLER
(o livro de fotos)


assustador um homem que inventa
outros homens

o que vêem seus olhos
abertos ou fechados
noite ou dia

assustador um nome que ao ser pronunciado
faz existir as frases que aguardam na estante

Nabokov caça borboletas
com uma rede adequada e pisará sobre flores
Estaremos numa primavera?
Beckett mira qualquer botão da camisa
no quarto de negra totalidade
Estaremos loucos?
Char segura uma bengala
ou uma espada
Estaremos mortos?
Kerouac vê cadeiras, teto, tapete,
cortina e um despertador automático
Estaremos prontos?
Borges se você sair desta enorme janela
não vinga a eternidade
Estaremos rindo?
Genet sentado no chão desconsidera
a última moda em lenços de couro
Estaremos quites?

E você escritorzinho sem fotografia
precisa de um blazer axadrezado
com mangas puídas
um aluguel vencido
um cabelo sem corte
um olhar indecifrável
um cachorro latindo
uma dor aguda nas costas
ou no braço
ou de dente
um copo vazio
outro copo
ônibus barulhentos passando
a manhã inteira
a tarde inteira
a noite inteira
passando
uma solidão que semelha a brasa
comendo o cigarro
(por falta de imagem mais nobre)

precisa abraçar uma enorme estátua
e pensar numa palavra não inventada

Estaremos salvos?







bio/biblio

Luci Collin – (Curitiba, 1964) Graduada no Curso Superior de Piano, em Letras e no Curso Superior de Percussão Clássica. Doutora em Letras pela USP com tese sobre Gertrude Stein. Recebeu premiações em concursos de literatura no Brasil e nos EUA. Representou o Brasil no Projeto Literário da EXPO 2000 em Hannover. Participa de antologias nacionais, com destaque para Geração 90 – Os Transgressores (Boitempo:2002) e 25 Mulheres que estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira (Record:2004), e internacionais (EUA, Alemanha, Uruguai e Argentina). Leciona Literaturas de Língua Inglesa e Tradução Literária na UFPR.
Livros publicados – Poesia: Estarrecer (1984), Espelhar (1991), Esvazio (1991), Ondas e Azuis (1992), Poesia Reunida (1996), Todo Implícito (1998); contos: Lição Invisível (1997), Precioso Impreciso (2001), Inescritos (2004). Publicações como tradutora: Re-habitar - Ensaios e poemas, de Gary Snyder (Azougue: 2005) e Etnopoesia no Milênio, de Jerome Rothenberg (Azougue: 2006).






POÉTICA:

poesia é a sonora frase/ que em si o silêncio profundo/ segundo em que se percebe/ que a ordem rasa do mundo/ não é sequer parecida/ coma ordem maior/ da vida

1 comment:

dionisios ditirambicos said...

Não é o "mundo tão real com todos os seus sóis e todas as suas vias lácteas, que é o nada", como imaginou Schopenhauer. sua poesia é como o viandante perdido, assim eu calado, leio. tons e altivas figuras, ostentar vida é dificil e voce mostra uma, alteridade visivel nestes poemas que me fizeram - grau zero - ler - novamente - mentindo que entendia, diáfano leitor que sou.
abraços