Tuesday, August 29, 2006

RICARDO CORONA




menciona a:

Estrela Ruiz Leminski
Bianca Lafroy
Claudio Daniel
Joca Wolff
Ricardo Pedrosa Alves


mencionado por:
Carlos Augusto Lima

Wilson Ninini



poema:

ESTILO DA BOCAPara Jardelina da Silva



1.
tá viva a letra...
no rastro do enigma
olhe de novo
(minha mãe lia o livro da terra
e tudo que eu faço é por isso)

pegadas juvenis
na floresta úmida


2.

a lua branca intercepta
reflexos
(eu sou o rabo e eles não podem com eu
eu levo o mundo inteiro)

na harpa ouro
do anjo nu


3.

clonado
sobre a lâmina do lago
(jardelina salvou o mundo,
desencantou a lagoa)

sobre
carpas em alvoroço


4.

no alvo do caos
no cu de uma estrela cadente
(ha ha ha ha ha ha
ha ha ha ha ha ha ha)

no primeiro riso
depois do humano


5.

depois do macaco
antes da hiena
(porque o primeiro índio é o pajé
cê sabia disso?)

o primeiro, depois
do nem fim nem começo


6.

na passagem
no avesso da paisagem
(eu entrei dentro dos quinto dos inferno
mas tudo que eu falo é o planeta)

olhe para dentro
olhe para fora


7.

olhe com as costas
do globo ocular
(tudo o que eu falo sai num afirmado
esqueci o estilo da boca)

deixe a velha poesia
para trás


8.
(Minha mãe lia o Livro da Terra:

“Essa cigana, ela usa batom,
ela usa tudo quanto é tintura
e ela nunca larga a moda dela,
e nem acompanha a moda de ninguém,
a moda dela só ela que faz.”

Eu ia saber que era eu?)


O título e os textos em itálico de Estilo da boca são trechos retirados de um depoimento oral de Jardelina da Silva (1929-2004).

de Corpo sutil (Iluminuras, 2005)


bio/biblio


Ricardo Corona (1962) nasceu numa cidadezinha chamada Pato Branco (PR), próxima das fronteiras de Brasil, Argentina e Paraguai. É autor dos livros de poesia Cinemaginário (1999), Corpo sutil (2005) e Tortografia, em parceria com Eliana Borges (2003) – todos pela editora Iluminuras. Em 2001, lançou o CD de poesia Ladrão de fogo (Medusa) e atualmente, está gravando TÁVIVAALETRA, de poesia associada ao som. Organizou a antologia Outras praias – 13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores – 13 Emerging Brazilian Poets (edição bilíngüe – ed. Iluminuras, 1998). Traduziu em parceria com Joca Wolff o livro-poema a.A Momento de simetria (Curitiba, Ed. Medusa, 2005), de Arturo Carrera. Integra as antologias Pindorama – 20 poetas de Brasil (org. pelos editores da revista tsé-tsé, Buenos Aires, Argentina, 2000), Na virada do século – Poesia de invenção no Brasil (org. Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, SP, ed. Landy, 2002), Passagens – Antologia de poetas contemporâneos do Paraná (org. Ademir Demarchi, Curitiba, ed. IOP, 2002), Cities of Chance: New Poetry from the United States and Brazil (org. por Flávia Rocha e Edwin Torres, revista Rattapallax, New York, EUA, 2003), acompanhada de CD de poesia, no qual participa com o poema “Ventos e uma alucinação”, e Antologia Comentada da Poesia Brasileira no Século 21 (org. Manuel da Costa Pinto, ed. PubliFolha, 2006). Participou também da antologia Os cem menores contos brasileiros do século (org. Marcelino Freire, SP, Ateliê Editorial, 2004) e da mostra “Brasil: Poetry Today”, publicada na revista Slope (EUA, 2004). Tem poemas musicados por Vitor Ramil, Ana Lee, Neuza Pinheiro, entre outros. Em 1998, criou a revista de poesia e arte Medusa, e, em 2004, a revista de poesia e arte Oroboro, a qual edita em parceria com Eliana Borges.

poética:
A palavra contém idéia e a letra, som. Ou: chants en quête de paroles / pour peupler le silence du livre (JEAN-JOSEPH RABEARIVELO)

1 comment:

carlito said...

ih, só agora que já mandei minha lista é que eu lembrei, ricardo, da bianca!!! que bom que você lembrou e teremos no blog aquela poderosa e original figura, a "metamorfose ausente do livro de Ovídio" como ela se nomeou num poema muito bom - uma foto dela vai ajudar a dissipar um boato que corre por aí que ela não existe, que ela é que nem Zé Limeira e Homero...
Seu poema está bem legal também Ricardo, antes que eu esqueça.
Abraços